Os sofrimentos juninos dos Pastorinhos de Fátima

Para Lúcia, Francisco e Jacinta, junho de 1917 “foi um mês de sofrimento inaudito e parecia não ter fim essa tempestade”. Conheça um pouco do que aconteceu, por permissão de Nossa Senhora, a essas almas eleitas.

Meditemos sobre os sofrimentos e as provações por que passaram os três Pastorinhos de Fátima, Lúcia, Francisco e Jacinta, no mês de junho.

A presente exposição foi retirada de uma biografia da Irmã Lúcia, publicada pelo Carmelo de Coimbra, Portugal [1].


O dia 13 de junho foi um teste. Como a Lúcia era muito amiga de festas, em casa estavam para ver o que ela escolheria, sendo neste dia a festa de Santo Antônio. Uma festa na aldeia para as crianças deste tempo, que não tinham outras distrações, não se podia perder. Todos estavam a ver o que eles fariam. Costumavam nesse dia abrir os rebanhos de madrugada para os recolherem às 9 horas e irem à festa. Ao aproximar-se o dia, a mãe e as irmãs diziam-lhe:

— Sempre estou para ver se tu deixas a festa para ires para a Cova da Iria falar lá com essa Senhora [2].

No dia 13 guardaram silêncio. A pequena saiu bem cedo com o rebanho, pensando recolhê-lo a tempo de ir à Missa das 10 horas. Mas antes das 8 horas já estava o irmão a chamá-la. Tinham chegado umas pessoas que lhe queriam falar e ele ficava com o rebanho. Era um grupo de pessoas que vinham de outras terras que ficavam a uns 25 km ao redor de Fátima e queriam acompanhá-la à Cova da Iria.

Sendo ainda muito cedo, convidou-os a ir à Missa das 8 horas e depois iriam para a Cova da Iria. Voltaram da Missa e as pessoas esperaram por ela à sombra das figueiras. Lúcia sentia como fel o silêncio que reinava à sua volta… pelas 11 horas foi ao encontro dos primos e na companhia dessas pessoas dirigiram-se para o local das Aparições. Ali rezaram o terço enquanto esperaram a chegada da Senhora.

Como em maio, a Aparição fez-se anunciar por um relâmpago. E a Senhora chegou. Lúcia fez a mesma pergunta de Maio:

— Vossemecê que me quer?
— Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o terço todos os dias e que aprendam a ler. Depois direi o que quero.
— Pedi a cura dum doente.
— Se se converter, curar-se-á durante o ano.
— Queria pedir-Lhe para nos levar para o Céu.
— Sim; a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. A quem a aceita, prometer-lhe-ei a salvação e estas almas serão amadas de Deus, como flores colocadas por Mim para enfeitar o Seu Trono.
— Fico cá sozinha? — perguntei, com pena.
— Não, filha. E tu sofres muito? Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.

Foi no momento em que disse estas últimas palavras que abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco parecia estarem na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora, estava um coração cercado de espinhos que parecia estarem-lhe cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação [3].

Nossa Senhora desta vez ainda não lhes recomendou segredo, mas os Pastorinhos a isso se sentiram movidos. Era também uma proteção para não contarem tudo o que a Senhora lhes disse, mas começou a ser motivo de novo sofrimento.

Lúcia começa a embrenhar-se mais na espessura da noite, numa grande solidão. Saber que os primos iam em breve para o Céu e ela ficaria sozinha na Missão que lhe era confiada, fazia-a sofrer tanto! A Jacinta confortava-a recordando a promessa da Senhora de que teria o Seu Imaculado Coração como um refúgio, mas… era muito doloroso. Impressiona ver uma criança de dez anos a braços com tanta responsabilidade e tanto sofrimento! E surgiu a voz da tentação, porque o demônio não deixa que o trabalho de Deus se faça sem tentar os que Ele chama. É o tempo da prova, um tempo difícil, mas se bem aproveitado, tem a função de enraizar mais na fé e fortalecer os alicerces da vida.

Depois da Aparição de Junho, ao ver que em vez de tudo se esfumar, os acontecimentos continuavam e tomavam proporções já tão grandes, a mãe de Lúcia muito preocupada com as supostas mentiras da filha e dos sobrinhos, fica aliviada quando o Pároco lhe manda dizer que leve a Lúcia à residência paroquial para ele a interrogar. Era o primeiro passo da Igreja.

Pensando que o Pároco ia resolver aquele grande problema que lhe caíra em casa, a mãe muito séria, comunica à Lúcia com alguma satisfação na voz:

— Amanhã vamos à Missa logo de manhãzinha. Depois, vais a casa do Senhor Prior. Ele que te obrigue a confessar a verdade, seja como for; que te castigue; que faça de ti o que quiser, como que te obrigue a confessar que tens mentido, eu fico contente [4].

Nessa tarde a pequena ainda falou com os primos e confessou-lhes a apreensão que sentia diante das ameaças da mãe. Eles informaram-na que o Pároco também os mandou ir, mas que não lhes meteram esses medos. Para se alentarem mutuamente, rematam:

— Paciência! Se nos baterem, sofremos por amor de Nosso Senhor e pelos pecadores [5].

Sempre a pensar no bem dos outros, sempre com o desejo de salvar almas.

Para sua surpresa, Lúcia que estava à espera de ver diante de si uma cara de ferro e terríveis ameaças, vê se interrogada com muita paz e amabilidade, embora o interrogatório tenha sido minucioso e maçador. Mas o Pároco não se convenceu e deixou a pequena num mar de sofrimento, ao dizer-lhe que “aquilo podia muito bem ser um engano do demônio” [6].

Foi uma aguda seta no íntimo da sua consciência. Daqui vieram noites sem dormir ou com pesadelos terríveis que lhe perturbavam o sono; desânimo, abandono da prática do sacrifício, vontade de tudo abandonar e dizer que afinal era mentira e, sobretudo começou a formular o propósito firme de nunca mais voltar aos encontros marcados com a Celeste Aparição nos dias treze. E comunicou aos primos a sua resolução. A Jacinta disse lhe com toda a convicção:

— Não é o Demônio, não! O Demônio, dizem que é muito feio e que está debaixo da terra, no inferno; e aquela Senhora é tão bonita! E nós vimo-La subir ao Céu [7]!

Dissuadiu-a de dizer que não tinha visto nada, porque então é que estava a mentir. Com o Francisco, ajudou a prima com muita oração e sacrifícios. Os dois foram para ela uma maravilhosa retaguarda. Conhecendo o sofrimento da prima, os dois Pastorinhos foram-na consolando e aconselhando como puderam e, sobretudo, mais com o silêncio do que com a palavra.

Nestes momentos, a ajuda silenciosa é mais eficaz. Com ela sofriam, por ela oravam e ofereciam sacrifícios. A tentação confessada está meio vencida, porque fica a porta aberta à ajuda de quem Deus coloca ao lado daquele que está a sofrer essa batalha. Lúcia teve a seu lado aqueles dois anjos que, iluminados pelo Espírito Santo, a aconselhavam como se fossem grandes mestres e ela recebia com humildade a ajuda dos mais novos.

Foi um mês de sofrimento inaudito e parecia não ter fim essa tempestade. Ao lado dela estavam os dois primitos desolados ao ver aproximar-se o dia treze de Julho e a Lúcia a afirmar que não ia com eles, que falasse a Jacinta com aquela Senhora. Atormentada por pesadelos noturnos, durante os quais se via nas garras do demônio e arrastada para o inferno, procurava todas as oportunidades de se esquivar, até à companhia destes dois sinceros amigos, para sozinha chorar à vontade e não ouvir razões de ninguém. No dia doze,

A resolução estava tomada e eu bem resolvida a pô-la em prática. Pela tarde, chamei a Jacinta e o Francisco e informei-os da minha resolução. Eles responderam-me:
— Nós vamos. Aquela Senhora mandou-nos lá ir.
A Jacinta prontificou-se a falar ela com a Senhora, mas custava-lhe que eu não fosse e começou a chorar.
Perguntei-lhe por que chorava.
— Por tu não quereres ir.
— Não; eu não vou. Olha: se a Senhora te perguntar por mim, diz-lhe que não vou, porque tenho medo que seja o demônio [8].

E foi esconder-se detrás de um silvado, para não ter de responder às numerosas pessoas que já começavam a chegar. Os dois primos estavam desolados, mas não afrouxaram a sua intercessão por ela, nem a confiança em Nossa Senhora. À noite, quando regressou à casa, a mãe censurou-a por passar todo o dia na brincadeira… mais um espinho sofrido em silêncio, sem se desculpar! Se a mãe pudesse ver por dentro o coração da sua mais pequena!…

 


Referências

  1. Carmelo de Coimbra, “Um caminho sob o olhar de Maria”. Coimbra, Portugal: Edições Carmelo, pp. 56-60.
  2. Memórias da Irmã Lúcia I, 2.ªs Memórias, c. II, n. 4, p. 82.
  3. Idem, 4.ªs Memórias, c. II, n. 4, p. 175.
  4. Idem, 2.ªs Memórias, c. II, n. 5, p. 84.
  5. Ibidem.
  6. Ibidem.
  7. Memórias da Irmã Lúcia I, 2.ªs Memórias, c. II, n. 6, p. 85.
  8. Ibidem.

Fonte: Padre Paulo Ricardo

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