Terço da Divina Misericórdia

A oração dos simples, mas que confiam no Senhor

Entre as diversas formas de culto à divina misericórdia, a Festa e o Terço da Divina Misericórdia ocupam uma posição de destaque. Em 14 revelações especiais Jesus oferece à Santa Faustina esta nova forma de piedade, que hoje se encontra disseminada por todo o mundo. Assim como na vida da Igreja a Liturgia e a piedade intimamente se associam, na espiritualidade da divina misericórdia proposta por Santa Faustina se dá igualmente o encontro destas duas dimensões, particularmente através da Festa e do Terço.

Nosso Senhor ditou este novo terço à jovem Irmã Faustina – então com 30 anos – em Vilna (Lituânia), entre os dias 13-14 de setembro de 1935 (Festa da Exaltação da Santa Cruz), como uma oração de intercessão e reparação pelos pecados cometidos por toda a humanidade (cf. Diário, nn. 474-476).

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Revelação do Terço da Misericórdia

“No dia seguinte, na sexta-feira à noite, quando me encontrava na minha cela, vi o Anjo executor da ira de Deus. Estava vestido de branco, o rosto radiante e uma nuvem a seus pés. Da nuvem saíam trovões e relâmpagos para as suas mãos e delas só então atingiam a Terra. Quando vi esse sinal da ira de Deus, que deveria atingir a Terra, e especialmente um determinado lugar que não posso mencionar por motivos bem compreensíveis, comecei a pedir ao Anjo que se detivesse por alguns momentos, pois o mundo faria penitência. Mas o meu pedido de nada valeu perante a ira de Deus. E foi nesse instante que vi a Santíssima Trindade. A grandeza da Sua majestade transpassou-me profundamente e eu não ousava repetir a minha súplica. Porém, nesse mesmo momento senti em mim a força da graça de Jesus que reside na minha alma; e, quando me veio a consciência dessa graça, imediatamente fui arrebatada até o Trono de Deus. Oh! como é grande o nosso Senhor e Deus, e como é inconcebível a Sua santidade! E nem sequer vou tentar descrever essa grandeza, porque em breve todos O veremos como Ele é.

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Comecei, então, suplicar a Deus pelo Mundo com palavras ouvidas interiormente. Quando assim rezava, vi a impossibilidade do Anjo em poder executar aquele justo castigo, merecido por causa dos pecados. Nunca tinha rezado com tanta força interior como naquela ocasião.(…) No dia seguinte pela manhã, quando entrei na nossa capela, ouvi interiormente estas palavras: Toda vez que entrares na capela, reza logo essa oração que te ensinei ontem. Quando rezei essa oração, ouvi na alma estas palavras: Essa oração serve para aplacar a Minha ira. Tu a recitarás por nove dias, por meio do Terço do Rosário, da seguinte maneira:

Primeiro dirás o “Pai Nosso”, a “Ave Maria” e o “Credo”. Depois, nas contas de Pai Nosso, dirás as seguintes palavras: “Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e dos do mundo inteiro”. Nas contas de Ave Maria rezarás as seguintes palavras: “Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro.” No fim, rezarás três vezes estas palavras: “Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro“.(D. 474 e 476)

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Eram tempos de grande turbulência na Europa e no mundo em geral, sob diversas perspectivas (sócio-econômica, política, militar, cultural), o que haveria de desembocar num terrível conflito de proporções mundiais; é oportuno lembrar que no ano seguinte (1936) a Alemanha iniciaria o seu expansionismo invadindo a Renânia, e também seria desencadeada a guerra civil espanhola, que provocaria a morte de 1 milhão de pessoas. Tende misericórdia do mundo inteiro, é o brado dirigido a Deus Pai que deve ecoar – ontem, hoje e sempre! – pelos quatro cantos da terra, a fim de que os seres humanos aprendam a viver no amor. Não foi fácil para Santa Faustina divulgar o Terço, mas aos poucos os obstáculos são vencidos:

“Quando disse à Madre Geral que o Senhor queria que a Congregação rezasse o Terço da Misericórdia para aplacar a ira de Deus, a Madre me respondeu que, por enquanto, não podia introduzir essas novas orações, não aprovadas, mas acrescentou: “A Irmã me dê esse terço, talvez em alguma adoração possa ser rezado. Logo veremos. Seria bom que o Padre Sopocko publicasse um livrinho com esse Terço, então seria mais fácil rezá-lo na Congregação, porque assim é um pouco difícil”” (D 752; cf. 851; 1255; 1299; 1379).

Intercessão pela salvação da humanidade

As pessoas que rezam o Terço da Misericórdia oferecem ao Eterno Pai o Corpo e Sangue, a Alma e Divindade de Jesus Cristo (Filho de Deus que assumiu a nossa natureza humana) em expiação pelos seus pecados, dos seus entes queridos e de todo o mundo e, unindo-se ao único sacrifício de Jesus, recorrem àquele amor que o Pai Celestial tem para com o Seu Filho e para com todos os seres humanos em Jesus Cristo. Tal oração não substitui o necessário arrependimento sincero das próprias culpas (com eventual Confissão sacramental), mas se insere em nosso constante processo de conversão e reconciliação pessoal e comunitária. Na oração “ditada” pelo Anjo à Lúcia e suas companheiras em Fátima, no ano de 1916, é usada a mesma fórmula:

“Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e Vos ofereço o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo presente em todos os tabernáculos do mundo, em reparação dos ultrajes…” – Tal formulação encontra eco na tradição da Igreja, mais especificamente nos Concílios de Calcedônia (contexto cristológico – séc. V) e de Trento (contexto eucarístico – séc. XVI).

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Relação do Terço com a Liturgia

Dentro do Terço da Misericórdia encontramos duas invocações que possuem um claro sabor litúrgico. A primeira delas é: Tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. Com efeito, no rito de entrada da S. Missa encontram-se as seguintes invocações: «Kyrie, eleison; Christe, eleison» («Senhor, tende piedade de nós; Cristo, tende piedade de nós»). Estas invocações, inicialmente, estavam relacionadas com a oração dos fiéis, que agora se recuperou. Nos primeiros séculos – segundo o relato da peregrina Egéria, de finais do séc. IV –, depois das leituras bíblicas e da homilia, a cada petição da oração dos fiéis, a assembléia respondia «Kyrie, eleison». Talvez tenha sido o papa Gelásio, em finais do século V, quem passou esta invocação para o rito inicial, com a famosa «deprecatio Gelasii». – Outra invocação é a que se faz ao final do Terço: Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro. Esta oração se relaciona com o famoso Triságio oriental. Do grego “tris-agion” (três vezes Santo), é o nome que se dá à aclamação de louvor «Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal», testemunhado pela primeira vez no Concílio de Calcedônia. Por vezes, deu-se-lhe um sentido só cristológico, mas, na maioria dos casos, o sentido foi trinitário, como louvor ao Deus Trino.

Nos ritos orientais, sobretudo no bizantino, tem o seu lugar na procissão de entrada da Missa, como também acontece nos dias mais solenes do rito hispânico. Noutras liturgias orientais, canta-se antes das leituras bíblicas. Na Liturgia romana conservou-se só em Sexta-Feira Santa, durante a adoração da Cruz (cf. Missal Romano, “Lamentos do Senhor”, 1992, pp. 262ss). Também a Igreja Ortodoxa o conserva em sua Liturgia. Outra circunstância litúrgica em que também se pode falar de «triságio» é na aclamação do Sanctus, da Oração Eucarística: «Santo, Santo, Santo». Vê-se, assim, que a oração do Terço da Misericórdia, longe de nos afastar da Sagrada Liturgia, retoma algumas de suas fórmulas para alimentar a nossa piedade – tanto do Cristianismo ocidental como oriental!

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Graças e promessas alcançadas pela oração do Terço da Misericórdia

Através do Terço da Misericórdia, o fiel é convidado a manifestar primeiramente a sua confiança filial no “Pai das misericórdias” (2Cor 1,3), que jamais nos recusa a sua graça e o seu perdão (cf. Lc 11,13; 15,20). Jesus nos ensinou a rezar ao Pai pedindo que manifeste em nós a sua misericórdia: “Pai,…perdoa-nos os nossos pecados…” (Mt 11,4), e rezando o Terço o impetramos com insistência filial. A confiança em Deus é inseparável da caridade para com o próximo (cf. Mt 22,36-40), de modo que através do Terço da Misericórdia o cristão está outrossim realizando uma obra de misericórdia espiritual, animado pelas palavras do Apóstolo: “A graça que obteremos pela intercessão de muitas pessoas suscitará a ação de graças de muitos em nosso favor” (2Cor 1,11). A eficácia desta forma de piedade depende primeiramente, como sempre, da vontade do Pai (cf. Mt 26,39); como toda oração cristã, há de ser acompanhada também da humildade (cf. Lc 18,13-14), do perdão (cf. Mt 6,14s) e da perseverança (cf. Lc 11,8; 18,1-8). Assim, os fiéis podem esperar o cumprimento das promessas de Cristo a Santa Faustina e a todos que rezam com justa intenção, atenção e devoção o Terço da Misericórdia:

1) Jesus promete acompanhar aquele que reza este Terço com Sua benevolência durante toda a sua vida: “As almas que rezarem este Terço serão envolvidas pela Minha misericórdia, durante a sua vida … (D 754); Oh! que grandes graças concederei às almas que recitarem este Terço. As entranhas da Minha misericórdia comovem-se por aqueles que recitam este Terço (D 848); Minha filha, exorta as almas a rezarem esse Terço que te dei. Pela recitação deste Terço agrada-Me dar tudo o que Me peçam (D 1541) – se estiver conforme à sua vontade (D 1731);

2) Jesus promete particular assistência na hora da morte: Todo aquele que o recitar alcançará grande misericórdia na hora da sua morte (D 687; cf. 754; 1541);

3) Jesus promete olhar para toda a humanidade com compaixão: Minha filha, agrada-Me a linguagem do teu coração; pela recitação desse Terço aproximas a Humanidade de Mim (D 929);

4) Jesus promete a graça da paz e da conversão aos pecadores: Os sacerdotes o recomendarão aos pecadores como a última tábua de salvação. Ainda que o pecador seja o mais endurecido, se recitar este Terço uma só vez, alcançará a graça da Minha infinita misericórdia. (D 687); Quando os pecadores empedernidos o recitarem, encherei de paz as suas almas …(D 1541);

5) Jesus promete particular socorro ao agonizante pelo qual rezamos: Defendo toda alma que recitar esse Terço na hora da morte, como se fosse a Minha própria glória, ou quando outros o recitarem junto a um agonizante, eles conseguirão a mesma indulgência. Quando recitam esse terço junto a um agonizante, aplaca-se a ira de Deus, a misericórdia insondável envolve a alma e abrem-se as entranhas da Minha misericórdia, movidas pela dolorosa Paixão do Meu Filho (D 811; cf. 810; 834; 1035; 1036; 1541; 1565; 1797).

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Quando rezar o Terço da Misericórdia?

O Terço da misericórdia deve ser rezado especialmente na preparação para a Festa da Misericórdia, o que indica o seu elo com a Liturgia da Igreja, particularmente os sacramentos da Eucaristia e Confissão:

“O Senhor me disse para rezar o Terço da Misericórdia por nove dias antes da Festa da Misericórdia. Devo começar na Sexta-feira Santa” (D 796). Todavia nada impede que seja rezado em outras circunstâncias. O próprio Jesus pede a S. Faustina para rezá-lo várias vezes: Recita, sem cessar, este Terço que te ensinei (D 687); Vai falar com a Superiora e diz que desejo que todas as Irmãs e educandas rezem esse Terço que te ensinei. Devem rezá-lo por nove dias na capela, com o fim de pedir perdão a Meu Pai e suplicar a misericórdia de Deus para a Polônia (D 714; cf. 851). Algumas vezes Faustina reza o Terço da Misericórdia pedindo bom tempo (ora a chuva, ora o fim da tempestade) – e obtém a graça (D 1128; 1731; 1791). Imitando o crucificado, em certas ocasiões a religiosa polonesa o recitou com os braços abertos, associando, assim, a oração ao sacrifício (D 246; 934; cf. 847).

O costume de rezar breves fórmulas de oração consecutivas e numeradas mediante um artifício qualquer (contagem dos dedos, pedrinhas, ossinhos, grãos…), constitui uma das expressões da religiosidade humana, independentemente do Credo que alguém professa. Entre os cristãos, tal hábito já estava em uso entre os eremitas e monges do deserto nos séculos IV e V. Tomou incremento especial no Ocidente, com a recitação do “Pai-Nosso” um certo número de vezes consecutivas. Por volta do ano 1150 ou pouco antes, os fiéis conceberam a ideia de dirigir também a Maria 150, 100 ou 50 saudações consecutivas, à semelhança do que faziam repetindo a oração do Senhor. Cada uma das séries de saudações (às quais cá e lá se acrescentava o “Pai-Nosso”) devia, segundo a intenção dos fiéis, constituir uma coroa de rosas ofertada à Virgem Santíssima; daí os nomes de “rosário” e “coroa” que se foram atribuindo a tal prática; a mesma era também chamada “Saltério da Virgem Santíssima”, pois imitava as séries de 150, 100 ou 50 “Pais-Nossos”, que faziam as vezes de Saltério dos irmãos conversos nos mosteiros. O dominicano Alano da Rocha (+1475) sugeria a recitação de 150 mistérios, que percorriam os principais aspectos da obra da Redenção. O Terço de Nossa Senhora recebeu a aprovação e recomendação da Igreja em inúmeras ocasiões (cf. João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae). O Terço da Misericórdia não pretende substituir o Terço de Nossa Senhora ou nenhum outro (das Lágrimas de Maria, da Divina Providência etc.), mas favorecer particularmente a nossa confiança na divina misericórdia. Na medida do possível, o fiel é convidado a rezar freqüentemente – sozinho ou em grupo – tanto um como o outro!

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