Santo Estanislau Papczyński: uma vida, uma missão


Oração: Deus, Pai de Misericórdia, que chamastes Vosso servo bem-aventurado Estanislau Papczyński para difundir a honra da Imaculada Virgem Maria e despertastes em seu coração um grande ardor para a prática de atos de caridade, dignai-Vos conceder-me pela sua intercessão a graça (…) que Vos peço, e concedei-me, a seu exemplo, imitar fielmente as virtudes da Imaculada Mãe de Vosso Filho, Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Um jovem aventureiro

 

O Pe. Estanislau Papczyński nasceu a 18 de Maio de 1631, em Podegrodzie, diocese de Cracóvia, na Polónia. Era o mais novo de seis irmãs e um irmão.

Seus pais, Tomás e Sofia, camponeses de condição social humilde, batizaram-no no mesmo dia em que nasceu e deram-lhe o nome de João.

Podegrodzie — vista para a igreja paroquial e para a aldeia onde o Pe. Estanislau Papczyński nasceu e passou a sua infância.

 

Tem uma infância, adolescência e juventude bastante atribuladas. Como criança, manifesta pouca aptidão para as letras. Graças às orações assíduas feitas por ele à Mãe do Céu, obtém um imprevisto desenvolvimento das faculdades intelectuais e termina com ótimo aproveitamento a Escola Primária.

Com 19 anos de idade, continua os estudos, primeiro, em Podoliniec, no Instituto das Escolas Pias, onde completa a Gramática, e, depois, em Lwów (desta vez recebido sem dificuldade no mesmo colégio dos Jesuítas), onde fez os estudos humanísticos. Faz o curso de Retórica, e com ele conclui a Escola Secundária, no colégio dos Jesuítas, em Rawa Mazowiecka. No mesmo colégio, em 1654, conclui o curso bienal de Filosofia.

A sua primeira vocação: Piarista

Foi, provavelmente, aos 18 anos, durante os seus estudos em Podoliniec, no Instituto dos Piaristas, que João se sentiu chamado para ser religioso nessa congregação.

A sua vocação foi amadurecendo e, a 2 de Julho de 1654, já com 23 anos, depois de ter rejeitado uma proposta de casamento que os pais lhe faziam, decide entrar para o Instituto das Escolas Pias da Mãe de Deus (Piaristas), recebendo o nome de Estanislau de Jesus Maria.

Faz o primeiro ano de noviciado em Podoliniec, no fim do qual é mandado para Varsóvia, a fim de estudar Teologia.

Naquele tempo a Polônia tinha sido invadida pelas tropas suecas. Certo dia, o noviço Estanislau foi agredido por um soldado sueco, protestante.

Quando este puxou da espada para matá-lo (provavelmente, só porque viu nele, pelo hábito que vestia, um representante da Igreja Católica), Estanislau apresentou-lhe o pescoço para receber o golpe fatal, na esperança de poder dar a própria vida pela verdadeira fé. O soldado deu-lhe três golpes, os quais, porém, não lhe causaram nada senão uma intensa dor.

Durante os dois últimos meses do segundo ano de noviciado, preparou-se para fazer os votos, que emitiu a 22 de Julho de 1656.

A 12 de Março de 1661 é ordenado sacerdote. Continua como professor de Retórica até 1669. Sobre o assunto escreve um livro intitulado Introdução à Rainha das Artes, que foi publicado, pela primeira vez, em 1663, sendo muito apreciado.

 

Exerceu primorosamente o ofício de pregador, conquistando depressa o renome de “Orador famoso”.

Embora possuído destes dons tão excelentes, era um homem muito humilde. Por defender que a eleição de todos os superiores da Província polaca da Congregação dos Piaristas fosse feita pelo Capítulo Provincial, de acordo com a legislação da Igreja e por defender a fiel observância da regra nas comunidades da sua Província, entrou em conflito com os superiores, tendo sido considerado um “perturbador da Província”. Nestas circunstâncias, escreve mais duas obras: O Orador Crucificado e Cristo Sofredor.

As constantes e graves perseguições promovidas pelos superiores à sua pessoa, o relaxamento da observância da vida religiosa entre os Piaristas, o desejo de estabelecer a paz e a tranquilidade entre os membros divididos, por causa dele, em duas facções opostas e o impedimento imposto pelos superiores à sua atividade literária foram as principais razões que levaram o Pe. Estanislau a sair da Congregação dos Piaristas, em 1670.

Mas, no ato formal da saída, o Pe. Estanislau acrescentou uma solene proclamação (Oblatio) da sua plena adesão à segunda vocação religiosa, ou seja, a de iniciar um novo Instituto religioso, o dos Clérigos Marianos da Imaculada Conceição, e de viver nele segundo o espírito dos conselhos evangélicos, até à morte.

 

Lubocz — antiga capela no centro da aldeia, onde residiu o Pe. Papczyński depois de sair dos Piaristas. Nesta localidade encontrava-se a Casa dos Karski, na capela dos quais o Pe. Papczyński vestiu o hábito branco em Setembro de 1671.

 

A sua segunda vocação: Fundador da Ordem dos Marianos da Imaculada Conceição

A grande aventura e missão do Venerável servo de Deus Estanislau de Jesus Maria Papczyński foi, sem dúvida, a fundação da Ordem dos Marianos da Imaculada Conceição.

Depois de muitas dificuldades passadas para obter a dispensa dos votos simples e do juramento de perseverança no Instituto dos Piaristas, em Setembro de 1671, veste o hábito branco em honra da Imaculada Conceição, pela qual era um apaixonado.

 

Imagem de Nossa Senhora de Goźlin, a qual, segundo a tradição, estava pendurada no quarto onde o Pe. Papczyński nasceu. A imagem foi legada pelo Fundador dos Marianos ao convento de Goźlin, aquando da sua fundação em 1699. Pouco tempo depois, os fiéis que começaram a rezar diante desta imagem testemunharam que receberam algumas graças especiais.

 

Enquanto esperava o beneplácito da Santa Sé para o novo Instituto, Pe. Estanislau exerceu o ministério de capelão em Lubocz, na corte do nobre Tiago Karski (de 1671 a 1673). Durante o tempo livre, escreveu uma das suas mais importantes obras: O Templo Místico de Deus e elaborou a Regra do novo Instituto: Norma de Vida.

Os eremitas de Korabiew, orientados por Estanislau Krajewski, aceitaram o projeto do Pe. Estanislau consignado na Norma de Vida, da fundação do Instituto da Imaculada Conceição. A 24 de Outubro de 1673, o bispo, ao visitar os eremitas, sabendo da vida indisciplinada de alguns, estabeleceu que a comunidade de Korabiew não só se deveria reger pela Norma de Vida de Pe. Estanislau, mas também por certos Estatutos, dados por ele, que impunham um teor de vida rigorosamente disciplinado e estritamente contemplativo. Todos os eremitas, pouco habituados a uma vida mortificada, saíram da comunidade, ficando apenas o Pe. Estanislau e Krajewski.

Embora não fosse intenção do Venerável servo de Deus fundar um Instituto contemplativo, aceitou docilmente as determinações do bispo e adaptou a Norma de Vida às mesmas.

Dentro de pouco tempo, o Pe. Estanislau ganhou fama de santidade entre o povo, que começou a acorrer ao ermo de Korabiew. Porém, eram poucos os candidatos que entravam no austero Instituto Mariano, e eram ainda menos os que perseveravam. Em 1675, dá-se a revolta e a fuga de Krajewski. O Pe. Estanislau, tendo ficado apenas com um companheiro, teve uma profunda crise que o levou a interrogar-se se era realmente da vontade de Deus continuar a fundação do Instituto.

Para se certificar dessa mesma vontade, pediu para ser readmitido aos Piaristas, mas a resposta foi negativa. Tendo continuado a obra a que se sentia chamado, recebeu, entretanto, um certo encorajamento porque alguns “piíssimos” e “doutíssimos” candidatos se juntaram a ele.

A 30 de Abril de 1677, o número dos marianos já era suficiente para abrir uma nova Casa. Essa foi aberta em Nova Jerusalém (hoje, Góra Kalvária, perto de Varsóvia), para onde se transferiu o Venerável servo de Deus, por expresso desejo do bispo, Estêvão Wierzbowski, que o estimava muito e o queria junto dele como confessor e conselheiro espiritual.

 

Góra Kalwaria — fachada da igreja da Ceia do Senhor do ano de 1677. Os restos mortais do Venerável Servo de Deus são venerados nesta igreja.

A 21 de Abril de 1679, o bispo procede à criação canônica do novo Instituto. A Congregação dos “Clérigos Recoletos da Bem-aventurada Virgem Maria concebida sem pecado” (contemplativa), para a qual o Pe. Estanislau foi nomeado superior vitalício. A respeito do seu fim específico, é elogiado o zelo com o qual Frei Estanislau se dedica, totalmente e perante todos, com os seus companheiros, ao sufrágio das almas mais necessitadas do Purgatório. É, provavelmente, deste tempo a sua obra Inspeção do Coração.

Com a morte de D. Estêvão Wierzbowski, os marianos perderam o seu grande protetor e defensor contra os ataques dos adversários. O novo bispo, Witwicki, tendo dado ouvido fácil às acusações destes, esteve prestes a suprimir a congregação. Em 1688, ficando apenas com um companheiro e sentindo a hostilidade do novo bispo, Pe. Estanislau pôs, mais uma vez, em questão se era da vontade de Deus a continuação da Congregação, escrevendo ao Superior Geral dos Piaristas a perguntar se deveria continuar a sua obra ou regressar aos Piaristas. Não sabemos que resposta obteve, mas tudo indica que foi encorajado a perseverar na vocação mariana.

Em 1690, o Pe. Estanislau vai a Roma a fim de tratar da aprovação pontifícia do Instituto, para assim o pôr a salvo dos perigos que o ameaçavam. Depois de perder a esperança de obter a aprovação com base nas próprias Constituições, decidiu escolher uma Regra já aprovada pela Santa Sé e agregar-se a uma Ordem já existente. Escolheu a Ordem da Imaculada Conceição de Santa Beatriz da Silva (portuguesa) e a Regra da mesma.

A sua escolha não foi aceite por se tratar de uma Ordem feminina e por a Regra não ter sido adaptada a institutos masculinos. A pedido do Pe. Estanislau, os Franciscanos aceitaram a nova Congregação sob a sua proteção, decisão que teria de ser aprovada pela Santa Sé, o que não aconteceu por ter morrido, entretanto, o Papa Alexandre VII; e por o Pe. Estanislau, por motivos de saúde, ter regressado à Polônia antes da eleição do novo Papa.

Entretanto, o bispo Witwicki, desde o fim de 1691, começa a ter uma atitude mais benévola para com os Marianos. A crise estava a passar e o número dos Marianos ia aumentando. Mesmo assim, o Capítulo Geral decidiu fazer nova tentativa para obter a aprovação pontifícia do Instituto. Para essa missão foi mandado a Roma o Pe. Joaquim Kozlowski. Este, não tendo conseguido obter a aprovação da Norma de Vida como Regra dos Marianos, escolheu a Regra das Dez Virtudes da Bem-aventurada Virgem Maria, com a consequente agregação à Ordem dos Franciscanos.

Primeiro convento e igreja dos Marianos em Puszcza Mariańska – berço da Ordem dos Marianos. A igreja construída pelo Pe. Papczyński e pelos seus primeiros companheiros foi restaurada após o incêndio de 2 de Maio de 1993.

 

Assim sendo, a Congregação dos Marianos obtém aprovação pontifícia a 24 de Novembro de 1699, pelo Papa Inocêncio XII, como Congregação de vida apostólica ativa, segundo a vontade do Fundador, com a tríplice missão:

 

Defender o mistério da Imaculada Conceição (Este dogma ainda não tinha sido definido. Foi esta a primeira Congregação masculina dedicada à Imaculada Conceição);

 

Oferecer sufrágios pelas almas do Purgatório (particularmente pelos falecidos na guerra e dizimados pela peste);

 

Prestar auxílio aos párocos (particularmente na catequese do povo simples).

 

O Pe. Estanislau foi um intrépido apóstolo da abstinência das bebidas alcoólicas e determinou que essa fosse também uma característica da sua Ordem. Além da sua dedicação às obras de misericórdia espirituais, particularmente a do socorro às almas mais necessitadas do Purgatório, foi conhecido como um homem de “máxima caridade para com os irmãos” e apelidado de “Pai dos pobres”, “Pai dos necessitados e dos órfãos”.

O Pe. Joaquim regressou à Polônia na Primavera de 1701. A 14 de Abril do mesmo ano, o Pe. Estanislau e os seus companheiros, convocados em Capítulo, aceitaram a Regra das Dez Virtudes Evangélicas de Maria e declararam-se prontos a emitir os votos solenes sob a mesma Regra.

A 16 de Junho de 1701, o Venerável servo de Deus faz a sua profissão perante o Núncio Francisco Pignatelli, em Varsóvia, em que promete observar a Regra das Dez Virtudes, acrescentando a cláusula: “que não contrarie o espírito do Nosso Instituto”. De seguida, recebe a profissão dos seus súbitos.

O Venerável servo de Deus Estanislau de Jesus Maria Papczyński pode finalmente exclamar: “Agora, Senhor, podeis deixar partir o vosso servo em paz…”.

E assim aconteceu: o servo de Deus morreu, com fama de santidade, a 17 de Setembro desse mesmo ano, em Góra Kalwaria, onde está sepultado, na capela da Ceia do Senhor.

 

Goźlin — histórica igreja paroquial do ano de 1776. Goźlin foi a última fundação dos Marianos durante a vida do Pe Papczyński (1699).
Góra Kalwaria — sarcófago do ano de 1766, onde está depositado o caixão que contém os restos mortais do Venerável Servo de Deus.

 

Interior da igreja da Ceia do Senhor em Góra Kalwaria, onde está situado o sarcófago do Pe. Papczyński.

 

A Santa Sé aprovou, em janeiro de 2016, o milagre atribuído à intercessão do Beato, sendo este milagre a cura inexplicável de uma jovem a quem os médicos já tinham desligado os aparelhos que a mantinham com vida.

 

No ano de 2016, no dia 05 de junho, em Roma, aconteceu a canonização do fundador da Congregação dos Padres Marianos.

 

 

Texto Padre Basileu Pires, MIC

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