A Páscoa de Cristo é também a nossa páscoa

Na Eucaristia, celebramos a Páscoa de Jesus, ou seja, sua passagem da morte para a vida, através da cruz. A Páscoa de Cristo é também a nossa Páscoa, pois estamos de passagem neste mundo. É nossa também porque passamos continuamente do pecado para a graça, do vício para a virtude, da escravidão para a liberdade, do ódio para o amor, recordando a verdadeira passagem de Deus em nossa vida. Vamos ver onde começou a Páscoa dos judeus.

A Páscoa dos Judeus ou Pêssach

Páscoa significa passagem. É a festa mais importante dos judeus. Ainda hoje eles a celebram. Começou assim: eles eram pastores e agricultores. Como pastores, não tinham morada fixa. Páscoa era a festa comemorativa da passagem que faziam de uma pastagem para outra, no início da primavera. E ofereciam a Deus as primeiras crias dos animais, para pedir bênçãos e proteção. Era também a festa do agricultor, onde faziam pão com o primeiro trigo ou a primeira cevada que colhiam. E ofereciam a Deus esses pães ou feixes de trigo e cevada.

Houve um tempo em que esses pastores e agricultores desceram ao Egito para buscar alimentos. E começaram a morar no Egito. Viveram lá quatrocentos e trinta anos. Cresceram em número. Os egípcios ficaram com medo do povo Judeu e começaram escravizá-los. Mas quanto mais foram perseguidos, mais cresciam e se multiplicavam. No mesmo tempo o povo judeu clamava pela libertação. Enfim, Deus enviou Moisés até eles, a fim de libertá-los da escravidão (cf. Ex 1- 5). Moisés intercedia pelo povo junto ao faraó. O faraó que governava o Egito não os deixou partir. Deus envia, então, 10 pragas ao Egito (leia Êxodo, capítulo 7 a 11). Enfim, o faraó permite que eles partam. Moisés convida o povo a celebrar a Páscoa, ou seja, a passagem da escravidão à liberdade.

Celebração da Páscoa

Os judeus celebravam assim: comendo um cordeiro (Capítulo 12 do Êxodo). As portas das casas onde estavam reunidos os hebreus deviam estar pintadas com o sangue do cordeiro que haviam matado e estavam comendo (Êxodo 12,7). O anjo de Deus passaria, naquela noite, para matar todos os filhos mais velhos dos egípcios e todas as primeiras crias (Êxodo 12,12). O sangue serviria de sinal: o anjo de Deus não mataria ninguém que estivesse dentro de uma casa cuja a porta estivesse manchada de sangue (Êxodo 12,13).

Deviam comer a Páscoa assim: amarrados com um cordão, em forma de cinto (para andar mais depressa), os pés calçados e o cajado na mão (a caminhada ia ser longa e não podiam machucar os pés e nem se cansar). Deviam comer o cordeiro depressa, com pão sem fermento, ou seja, ázimo (o fermento era sinal de impureza; o pão sem fermento fica duro: era para simbolizar a dureza da vida na escravidão do Egito), acompanhado de ervas amargas (para simbolizar a amargura da vida da escravidão). Mais uma vez “comereis às pressas, pois é a Páscoa (isto é Passagem) do Senhor” (Êxodo 12, 11b).

Assim fizeram. E Deus cumpriu o que prometera. Feriu de morte o Egito e livrou a seu povo. Eles saíram depressa e atravessaram o mar Vermelho (Êxodo 13,17-14.31) na direção da Terra da Liberdade.

A Páscoa judaica deixou, então, de ser a passagem de um pasto para outro e passou a ser a passagem da escravidão à liberdade, do Egito para a Terra Prometida. Para comemorar esse fato eles se reuniam todos os anos e repetiam essa refeição, recordando a libertação que Deus havia feito, celebrando assim a Festa da Páscoa. Este era um pedido de Deus: “Este dia será para vós um memorial em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua” (Êxodo 12,14). Hoje em dia os judeus ainda celebram esta festa para reviver a libertação. Jesus, no seu tempo, também participava, todos os anos, da Páscoa dos judeus. E foi na sua última Páscoa que ele instituiu a Eucaristia, a Nova festa da Páscoa.

Quando os judeus se reuniam para celebrar a Páscoa, renovavam a Aliança (contrato de amor) entre eles e Deus. E o sangue das vítimas sacrificadas era jogado sobre o povo, para selar esta Aliança.

A Ceia do Senhor

Jesus instituiu a Eucaristia dentro da última Páscoa judaica da qual participou. A cerimônia da Páscoa judaica tinha quatro partes:

  1. Bênção da festa e do 1º cálice de vinho; purificação; comer ervas amargas.
  2. Sermão do pai de família, explicando a festa; cantos dos Salmos; 2º cálice de vinho.
  3. Purificação; benção do pão; comer o cordeiro pascal, 3º cálice de vinho, chamado, “o cálice da bênção”.
  4. Canto dos Salmos e 4º cálice.

 

Na ceia que celebrou com seus discípulos, o Senhor conservou algumas coisas da cerimônia judaica, introduziu coisas novas e deu-lhes um significado redentor.

A Ceia do Senhor também tem quatro partes. Começa assim:

  1. Um profundo gesto de humildade, amor e serviço: o lavar os pés dos discípulos. Jesus se coloca no lugar dos escravos que lavavam os pés dos seus patrões. Ele, o Mestre, lava os pés dos discípulos em sinal de amor e de serviço. E pede que façam o mesmo; explicando o sentido do seu gesto (leia João 12,2-15; Lucas 22,24-27).
  2. Jesus faz um longo discurso, explicando aos discípulos o que iria acontecer com ele, animando-os a permanecerem firmes e prometendo o Espírito (leia os capítulos 14 e 17 de João).
  3. Depois disso, Jesus pega o pão, abençoa-o como fazia o pai de família judeu, e traz a grande novidade. Ele diz “Tomai e comei. Isto é o meu Corpo que é dado por vós” (Mateus 26,26; Marcos 14,22; Lucas 22,19; I Coríntios 11,24). O pão abençoado e comido não recorda mais a dureza da vida na escravidão do Egito. Ele é o Corpo de Cristo, entregue por nossa causa e por nossa salvação do pecado. Não é mais necessário comer um cordeiro: nós comemos o Corpo de Jesus, no pão consagrado. A seguir, Jesus pega o cálice com vinho, abençoa e diz: “Tomai e bebei todos. Isto é o meu Sangue, o Sangue da Nova e eterna Aliança, derramado por vós e por todos os homens, para o perdão dos pecados” (Mateus 26,27-28; Marcos 14,24; Lucas 22,20; I Coríntios 11,25). Na Páscoa que os judeus comeram no Egito, o sangue do cordeiro que pintava a porta era sinal de salvação. Agora não é mais o sangue do cordeiro que é salvação. O Sangue de Cristo, derramado por nós, é que nos salva e nos perdoa os pecados. Na celebração da Aliança no Antigo Testamento jogava-se sobre o povo o sangue dos animais sacrificados a Deus, em reparação pelas faltas. Agora, é o Sangue de Cristo que é derramado por nós numa Nova e Eterna Aliança (contrato de amor), selada no Sangue de Jesus.
  4. A última parte da Ceia do Senhor constou de canto de Salmos, como faziam os judeus (leia Mateus 26,30; Marcos 14,26). O hino a ser cantado eram os Salmos 113 a 118. Finalizada a Ceia do Senhor, Jesus se dirige ao Jardim das Oliveiras; é preso, condenado e morre no dia seguinte.

Um detalhe importante: Jesus morre na mesma hora em que os judeus matavam o cordeiro da sua Páscoa por volta de três horas da tarde. Com isso o Evangelho quer dizer: O verdadeiro Cordeiro não é o animal que os judeus matam; é Cristo que morre na Cruz. A verdadeira Páscoa não é aquela, onde se come o cordeiro, mas a Ceia do Senhor, onde se come e se bebe o Corpo e o Sangue de Cristo. A verdadeira e única Páscoa é a de Jesus que está morrendo na cruz, entregando seu Corpo e derramando seu Sangue para a nossa salvação.

Quando celebramos a Santa Missa, atualizamos e tornamos presente a Ceia do Senhor, a Nova Páscoa. E assim cumprimos o preceito divino “Fazei isto em memória de mim” (1 Cor 11, 24). Repetimos, com Ele, sua Paixão-Morte-Ressurreição. Acontece a verdadeira Páscoa, a passagem de Deus em nossa vida, acontece a nossa salvação e a nossa libertação. Se nosso coração e a nossa mente aceitassem esta verdade, seriamos as pessoas mais felizes do mundo.

Uma Feliz e abençoada Páscoa!

Pe. André Lach, MIC

O Diário de Santa Faustina

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