São José de Anchieta

anchieta2O primeiro missionário evangelizador em terras brasileiras

O sacerdote Jesuíta José de Anchieta nos remete, de maneira quase que inevitável, ao passado da nossa nação. É impossível falar desse Apóstolo do Brasil, como é conhecido, sem recordar fatos históricos da colonização desta Terra de Santa Cruz. O reconhecimento da sua santidade vinha sendo aguardado pela Igreja do Brasil por mais de 400 anos. O Papa Francisco pôs fim a essa espera ao assinar, no dia 3 de abril de 2014, o decreto de santidade de José de Anchieta.

O santo, de origem espanhola, desembarcou no Brasil, vindo de Portugal, em 1553, na flor de sua juventude, aos 19 anos. Ainda não era sacerdote, contudo já havia professado os votos de pobreza, castidade e obediência. “Com coração juvenil, amou, desde o primeiro contato, o povo brasileiro. A ele, dedicou sua grande inteligência, cultura e erudição, a capacidade de amar e de sofrer por amor. A ele, consagrou suas qualidades humanas, a capacidade de lutar, de ser destemido e a sua espiritualidade”, assim o descreveu o Cardeal Raymundo Damasceno na santa Missa em ação de Graças pela canonização de José de Anchieta, celebrada em Roma no dia 24 de abril de 2014.

A arte de evangelizar

Em terras brasileiras, José de Anchieta vivia a pobreza e a simplicidade entre os índios, os marginalizados e os negros. Da sua primeira vivência entre os índios, descreve numa carta enviada à Europa o costume apresentado por eles de colocar folhas de bananeiras como toalha sobre a mesa, observando que não sabia ao certo a razão desse cuidado, considerando que o alimento eles não tinham. Ainda assim, assegurava que ele e os demais padres Jesuítas estavam felizes e que não sentia saudades da vida confortável que tinha na Europa.

Foi um incansável evangelizador em nossas terras e sua criatividade é notória. Catequizava os índios com a poesia e o teatro. Ousadia que “nos interpela sobre os métodos de evangelização que usamos hoje”, aponta Dom Damasceno. Por isso, o santo Anchieta é para nós inspiração, já que hoje se faz urgente uma autêntica evangelização inculturada, ou seja, capaz de evangelizar as culturas para inculturar o Evangelho.

A trilha do Santo

Amante e observador da natureza, José de Anchieta escreveu a conhecida Carta de São Vicente contendo a primeira descrição detalhada da Mata Atlântica, importante bioma brasileiro. Anchieta costumava abrir picadas pela mata litorânea entre Iriritiba e a ilha de Vitória, com pequenas paradas para a oração e o repouso nas localidades de Anchieta (que foi chamada também Benevente e Reritiba), Guarapari, Setiba, Ponta da Fruta e Barra do Jucu.

Mais recentemente, na década de 70, o professor, arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo decidiu desbravar o caminho criado pelo santo. “O que se sabia há 40 anos atrás é que aquele sacerdote havia vencido a Serra do Mar por um caminho às margens do Rio Perequê”. Curioso por saber o que o padre Anchieta experienciou mata adentro, o professor montou uma equipe que, munidos de kits para expedições, partiu para resgatar essa história. Deparam-se com “uma das paisagens mais belas da região: a conjunção de três afluentes formando, o que, se presume, seja a Grota do Perequê, ponto de um caminho conhecido por Caminho do Monge, outra denominação do Caminho do Padre José de Anchieta”. [1]

Um dos resultados dessas expedições do padre Anchieta pela serra do mar deu origem à cidade de São Paulo. O santo registrou numa carta enviada ao seu superior provincial, em Portugal, que ao chegar ao planalto de Piritininga encontraram “ares frios e temperados como os da Espanha” e “uma terra mui sadia, fresca e de boas águas”. E esse foi o local adequado para se iniciar um novo povoado: numa colina alta e plana, cercada por dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú. Em 25 de janeiro de 1554, o sacerdote Manoel da Nóbrega, na presença do seminarista José de Anchieta, celebrou a primeira Missa no local do Colégio São Paulo de Piratininga, fundado pelos Jesuítas, e que deu origem ao povoado que se formou ao redor.

Atualmente a trilha do santo Anchieta, com cerca de 105 quilômetros, vem sendo percorrido a pé por turistas e peregrinos.

Onde houver ódio que eu leve o amor…

Como bom devoto de São Francisco de Assis, José de Anchieta atuou também como mediador da paz. Em 1563 ele intermediou as negociações da Confederação dos Tamoios entre os portugueses e os indígenas. Permaneceu por vários meses como refém dos índio, período no qual compôs um conhecido poema dedicado à Bem-Aventurada Virgem Maria – expressão máxima do seu amor e devoção à Mãe de Deus. Conta-se que ele teria escrito esse poema nas areias da praia; memorizou cada palavra e, mais tarde, passou para o papel.

Certamente esse período de confinamento foi para ele um dos mais difíceis. Já que teve que passar dias sem a Eucaristia e as visitas diárias que fazia ao Santíssimo Sacramento. Apenas quando um sacerdote chegava à aldeia indígena é que Anchieta podia participar da santa Missa e receber o sua amado Jesus-hóstia. O seu amor e saudade pela Sagrada Eucaristia está registrada em diversos poemas que compôs. Num deles declamou: “Oh que pão, oh que comida, oh que divino manjar Se nos dá no santo altar cada dia”.

Anos depois (1566), Anchieta foi à Capitania da Bahia a fim de informar ao governador Mem de Sá sobre o andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Nesta mesma época, aos 32 anos, José de Anchieta foi ordenado sacerdote. O santo, apaixonado pela Eucaristia, tratou logo de providenciar um altar portátil, e dessa maneira, nem mesmo em suas viagens marítimas pela costa do Brasil ele deixou de celebrar a santa Missa. Descia em cada porto, montava o seu altar portátil e ali adorava a Jesus Eucarístico.

Em 1569, José de Anchieta participou da fundação do povoado de Reritiba, atual Anchieta, no Espírito Santo. Dirigiu o Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro de 1570 a 1573. E em 1577 foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos. Em 1587 foi para Reritiba, manteve-se à frente do Colégio dos Jesuítas em Vitória – ES.

O primeiro devoto do Coração de Jesus no Brasil

Atualmente, o maior conhecedor da vida do santo Anchieta é o padre Hélio Abranches Viotti, SJ, professor de história do Brasil nas Faculdades dos Jesuítas, membro de institutos históricos e academias de letras que desde 1922 pertence à Companhia de Jesus. Padre Hélio conta que José de Anchieta foi um grande devoto do Sagrado Coração de Jesus. “Ele já se antecipava nessa devoção”, comenta o sacerdote ao falar do verso “a lança que abriu-lhe o peito…” de um dos poema de Anchieta. O seu amor e devoção pelo ao Coração de Jesus são lindamente expressas também com estas palavras, parte de um poema: “Ei-lo, rasgado jaz nesse tronco inimigo, e com sangue a escorrer paga teu furto antigo! Vê como larga chaga abre o peito, e deságua misturado com sangue um rio todo d’água”.

No fim de sua vida, o sacerdote Anchieta retirou-se para Reritiba, local onde faleceu em 1595. Nesse mesmo ano foi aberto o processo informativo para a sua beatificação. Em 1980 – o Papa João Paulo II declara-o bem-aventurado, e nesse ano de 2014, por fim, foi finalizado o processo de canonização, mesmo sem a comprovação dos milagres alcançados por sua intercessão.

“São José de Anchieta soube comunicar aquilo que experimentou na comunhão com o Senhor, aquilo que tinha visto e ouvido Dele; essa é a razão de sua santidade. Não teve medo da alegria”, apontou o Papa Francisco na Missa em ação de graças pela canonização desse santo.

 

 

Gislaine Keizanoski
Revista Divina Misericórdia

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[1] Consultado em 06 de maior de 2014. http://blogs.estadao.com.br/edison-veiga/2014/04/06/andei-por-essas-aldeias-de-uma-carta-do-padre-jose-de-anchieta-mais-de-400-anos-atras-sobre-o-caminho-atraves-da-serra-do-mar/