“O definitivo chamado de Deus,
a graça da vocação para a vida religiosa,
eu senti desde os sete anos de vida.
Com essa idade, ouvi pela primeira vez
a voz de Deus na alma (…), mas nem sempre
 fui obediente à voz da Graça.” (Diário, 7)

 

Santa Faustina narra nos primeiros números do seu Diário o início da sua vida espiritual e como foram os primeiros passos da sua trajetória vocacional. Santa Faustina quando criança ouve a vós de Deus, como cada um de nós, quando somos mais inocentes e puros para ouvir a voz do Senhor. Quando completou 18 anos, narra no número 9, que fez um pedido insistente para ir para o convento, o qual foi negado por seus pais.

“Aos dezoito anos, fiz insistente pedido aos meus pais para que me deixassem entrar no convento; a recusa foi decisiva. Depois dessa recusa, voltei às vaidades da vida,não prestando nenhuma atenção à voz da graça, embora minha alma não encontrasse satisfação em nada disso.”

Essa história se repetiu com muitas moças, não somente na época de Helena Kowalska, mas hoje também. A diferença é que quando Deus nos reserva uma obra, Ele faz o que é necessário para que isso aconteça a seu tempo, e se nós estragarmos muito os Seus planos, então, Deus tem um plano “B”.

Santa Faustina conta como ela reagiu, “se entregando às vaidades do mundo”, para ocultar a voz da Graça, apesar de saber onde estava a sua felicidade: na entrega total a Deus na vida religiosa. Mas Helena somente toma uma decisão contrária à vontade dos pais quando recebe um chamado ainda mais concreto.

“Numa ocasião, estava com uma de minhas irmãs num baile. Enquanto todos se divertiam a valer, a minha alma sentia [tormentos] interiores. No momento em que comecei a dançar, de repente, vi Jesus ao meu lado, Jesus sofredor, despojado de suas vestes, todo coberto de chagas, que me disse estas palavras:

Até quando hei de ter paciência contigo e até quando tu Me decepcionarás?” (Diário, 9).

Essa é a queixa de Jesus a Helena Kowalska, durante uma festa. Já não há mais como dizer não a este Senhor.

Local onde acontecia o baile, Parque Veneza, em Lodz – como conta o trecho nº 9 do Diário.

Então ela corre até a Catedral de Łódź, algumas quadras dali, e diante do Santíssimo Sacramento, já não discute, apenas pergunta o que tem que fazer. E faz imediatamente o que lhe inspira o Senhor.

“Nesse mesmo momento, cessou a música encantadora, não vi mais as pessoas que comigo estavam, [somente] Jesus e eu ali permanecíamos. Sentei-me ao lado de minha irmã, disfarçando com uma dor de cabeça aquilo que se passava comigo. Em seguida, deixei disfarçadamente os que me acompanhavam e minha irmã e fui à catedral de santo Estanislau Kotska. Já começava a entardecer, havia poucas pessoas na catedral. Sem prestar [atenção] a nada do que ocorria à minha volta, caí de bruços diante do Santíssimo Sacramento e pedi ao Senhor que me desse a conhecer o que deveria fazer a seguir. Então, ouvi estas palavras:

Vai imediatamente a Varsóvia, lá entrarás num convento.

 

Catedral de Santo Estanislau Kotska, em Lodz.

Faustina segue para Varsóvia, não conhecendo ninguém, apenas com uma pequena trouxa nas mãos com alguns pertences. Nesse momento nada importa mais, é preciso fazer a vontade de Deus.

Quando desci do trem e vi que cada um seguia o seu destino, fiquei com medo e sem saber o que fazer. Para onde dirigir-me, não tendo ali ninguém conhecido? Implorei à Mãe de Deus: “Maria! Conduzi-me, guiai-me” (…).

No dia seguinte, bem cedinho, vim à cidade e entrei na primeira igreja que encontrei (…). As santas Missas se sucediam. Durante uma delas, ouvi estas palavras: Vai falar com esse padre, diz-lhe tudo, e ele te dirá o que deves fazer em seguida. Terminada a santa Missa, fui à sacristia (…). No primeiro momento, o padre ficou muito surpreendido, mas depois recomendou-me que tivesse muita confiança, pois Deus me guiaria.” (Diário, 11 a 13).

““Por enquanto, [disse ele] vou enviar-te a uma piedosa senhora com quem poderás ficar enquanto não ingressares no convento”. Quando fui ter com essa senhora, ela me recebeu com grande afabilidade. Durante esse tempo, eu procurava um convento, mas a cada porta que batia era recusada. A dor apertou-me o coração e roguei então a Jesus: “Ajudai-me, não me deixeis sozinha”.

Até que, finalmente, bati à nossa porta.

Quando veio ter comigo a madre superiora, a atual madre geral Michaela, depois de uma breve conversa, disse-me que fosse ver o “Senhor da casa” e perguntasse se Ele me aceitaria. Compreendi logo que devia perguntar a Nosso Senhor. Fui à capela com grande alegria e perguntei a Jesus:

“Senhor desta casa, Vós me aceitais? — Foi uma das irmãs que me mandou perguntar assim”. E logo ouvi uma voz que me dizia: Eu te aceito, tu estás no Meu Coração.

Quando voltei da capela, a madre superiora logo me perguntou: “E então, o Senhor te aceitou?” — Respondi que sim. — “Se o Senhor te aceitou, eu também te aceitarei”” (Diário, 13 a 14).

Tradução: Você está no meu coração

Depois de seguir as Suas inspirações interiores, Santa Faustina encontra a Congregação de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia. Convidada pela Madre vai até a capela perguntar ao Senhor da casa, se Ele a recebe, obtendo a resposta de Jesus, começa os preparativos para entrar na congregação, precisava obter o dote necessário na época, e aí permanecerá até a morte.

Aquela que foi escolhida por Jesus para anunciar ao mundo a última tábua de salvação, não foi poupada de dificuldades e sofrimento. Às vezes, erroneamente, pensamos que alguém escolhido por Deus não sofre, ou certos sofrimentos ou tentações não surgirão em seu caminho, ou até que os religiosos não sofrem, isso não acontece.

Santa Faustina não tinha certeza de que era essa a congregação, apesar das inspirações anteriores.  Ela fala dessas terríveis dúvidas no número 18 e de como o Senhor mais uma vez lhe confirma que este é o seu lugar (cf. Diário, 19).

Antes de iniciar o segundo ano de noviciado, a Ir. Faustina já experimenta a noite escura da alma, não somente não sente a presença de Deus como tem dificuldades de se concentrar na oração. A noite escura de Ir. Faustina durou quase um ano, foram experiências dolorosas, mas puramente espirituais, por enquanto.

Podemos aprender com Santa Faustina a perseverança e a confiança, contra toda esperança. Como o ouro é provado no fogo, por vezes também a preciosidade da nossa fé deve ser posta à prova, para que em momentos de crises externas, tenhamos um refúgio interior, como uma fortaleza onde Deus habita, e aí, nada nem ninguém pode nos abalar.

No entanto, não podemos ler o Diário de Santa Faustina, ou a Noite Escura de São João da Cruz ou outras experiências semelhantes com a expectativa de que vai acontecer conosco desse mesmo modo. Pois cada um será santo por um caminho conhecido somente por Deus, e tudo acontece no tempo por Ele determinado, não precisamos procurar ou começar a “enxergar” inimigos ao nosso lado, pois não precisamos procurar o sofrimento, mas observar as graças que Deus derrama sobre nós em cada época da nossa vida.

O que deve nos ocupar a mente e o coração é o sentimento de gratidão pelo Senhor nos ter dado tão grandes exemplos de confiança e perseverança ao longo da história, não só do cristianismo, mas já começando pelo Pai da fé, Abraão até a nossa Dulce dos Pobres. Cada um por seu caminho…

“Tu és a Minha alegria, tu és a delícia do Meu Coração”.

Com essas palavras, no número 27, se dissiparam as trevas da alma da Ir. Faustina. Jesus então será o seu Mestre e vai ensinar Santa Faustina sobre a pobreza, a castidade e a obediência que ela prometeu a Ele pelos votos.

  • Casa geral da Congregação de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia – Varsóvia, Rua Zytnia 3/9, na qual ingressou a Irmã Faustina.

 

Este foi o caminho que Deus determinou para a pobre menina de um pequeno vilarejo da Polônia, Helena Kowalska, a quem convidou a ser a Secretária do Seu maior atributo, a Sua Misericórdia. Santa Faustina sabia bem que por mais que ela fizesse, sempre seria muito pouco em relação à grandeza da obra, e mais, em relação à grandeza d’Aquele que a chamou, desde criança para se entregar a Ele completamente.

  • Casa da Congregação de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia onde morou a Irmã Faustina, nos anos 1933-1936. Foi nesta casa que Jesus ensinou o Terço da Misericórdia. Vilnius (Lituânia), Rua Grybo, 29.

 

  • Casa da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia, Plock, Praça Stary Rynek 14/18. Neste local, Jesus apareceu à Irmã Faustina e pediu pintasse a Imagem de Jesus Misericordioso e expressou o desejo de que se instituísse a Festa da Misericórdia.

 

  • Convento da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia em Cracóvia–Lagiewniki, Rua Irmã Faustina 3 (Polônia). Neste local, encontra-se o sarcófago com os restos mortais da Irmã Faustina. Aqui Nosso Senhor expressou o desejo de que se venerasse a hora da Sua morte, a Hora da Misericórdia.

Confiemos no Senhor, Ele caminha conosco, e até quando nada sentimos, nada vemos, Ele está aí, carregando a cruz conosco, caindo conosco nas nossas vias e nos ajudando a levantar. Nós também fomos escolhidos para seguir o Senhor, cada um na sua vocação, e talvez seja a hora de nos prostrarmos diante d’Ele e perguntarmos: “Senhor, o que eu devo fazer agora?”.

 

 

Com informações das Irmãs de Jesus Misericordioso / Revista Divina Misericórdia, ed. 64