Dia da Bíblia: Ouvir e viver a Palavra de Deus

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A partir de 1971, a Igreja no Brasil passou a dedicar o mês de setembro para celebrar o mês da Bíblia. A escolha deste mês se deve ao fato de que no dia 30 de setembro comemoramos a memória de São Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o Latim.

Neste ano, foi escolhido o livro do Deuteronômio para as reflexões, com o lema “Abre tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11). Também neste livro encontramos uma das frases centrais de toda a Bíblia: “Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus, o Senhor é um” (Dt 6,4). E é sobre este escutar a Palavra que iremos refletir.

Deus fala

“O que aconteceria se tratássemos a Bíblia como tratamos o nosso smartphone?”. Esta pergunta foi feita pelo Papa Francisco e nos ajuda a pensar sobre o lugar que a Palavra de Deus ocupa em nossa vida.

Quase todos nós consideramos o smartphone um objeto essencial e não nos vemos mais vivendo sem ele. No entanto, se o smartphone é importante, muito mais importante para nós é a Bíblia Sagrada, onde lemos a Palavra de Deus. Se o celular possibilita a comunicação com nossos amigos, a Sagrada Escritura é o meio para nos comunicarmos com Deus.

A Bíblia, do início ao fim, nos apresenta a voz de Deus. Já no primeiro capítulo, por 11 vezes lemos a frase “Deus disse” (cf. Gn 1), e Ele pronuncia estas palavras para criar e organizar o universo. O nosso Deus não é mudo e se comunica constantemente conosco. Ele não é um Deus distante, pois fala conosco “como a amigos” (Dei Verbum, 2), assim como fazia com Adão e Eva, com Abraão, com Moisés e com os profetas.

Mas, o principal sinal da proximidade de Deus é o Seu Filho Jesus. Como diz o evangelista João, Jesus, a Palavra de Deus, “se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Vindo ao mundo, Ele anunciou a todos a Boa Notícia do Reino de Deus. Anunciando a Palavra de Deus, Jesus Cristo ensinou, curou os enfermos, fez milagres, denunciou os pecados, perdoou, convidou à conversão.

E antes de subir ao céu, Jesus confiou aos Apóstolos a tarefa de continuar a Sua missão de anunciar a Palavra de Deus, e para capacitá-los enviou o Espírito Santo. Na realidade, cada palavra que lemos nos 73 livros que formam a Bíblia é obra do Espírito Santo, pois foi Ele quem inspirou os homens a escreverem estes livros sagrados.

Reconhecemos, assim, que toda a Sagrada Escritura é obra da Santíssima Trindade, e somos convidados a aprender e a valorizá-la cada vez mais, pois esta é Palavra de Deus.

 

O ser humano escuta

Se Deus nos fala como a um amigo, também nós somos chamados a escutá-lo como amigos. Algumas das passagens mais belas da Sagrada Escritura falam desta nossa capacidade de escutar Deus: o jovem Samuel diz a Deus: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1Sm 3,10); Jesus disse a uma mulher: “Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam” (Lc 11,28); no episódio da Transfiguração de Jesus, Deus nos diz: “Este é meu Filho amado. Escutai-o!” (Mc 9,7); e na Carta aos Hebreus, lemos: “diz o Espírito Santo: hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hb 3,7-8).

Estes poucos exemplos nos mostram a importância da escuta da voz de Deus. O momento por excelência para escutar a Palavra de Deus é durante a Santa Missa, quando participamos da Mesa da Palavra, que está intimamente unida à Mesa da Eucaristia.

Foto: Grupo de Oração – Santuário da Divina Misericórdia, 2019.

No entanto, a Igreja nos convida a criar o hábito de ler com frequência a Sagrada Escritura. Ler a Bíblia significa escutar a Palavra de Deus, e para que esta escuta seja frutuosa, precisamos de algumas qualidades:

Disposição: coragem para combater a preguiça de ler. O Papa Francisco nos aconselha a termos uma pequena Bíblia com os Evangelhos, que possamos levar no bolso ou na bolsa (como levamos o smartphone), e assim poderemos lê-la em diversos momentos do dia, por exemplo, enquanto estivermos esperando uma consulta médica;

Humildade: reconhecer que sem a luz da Palavra de Deus não podemos progredir na vida de fé, que sem os ensinamentos da Sagrada Escritura não podemos buscar a santidade;

Silêncio: como ensina o Papa Bento XVI, “a palavra pode ser pronunciada e ouvida apenas no silêncio, exterior e interior” (Verbum Domini, 66); ou, como disse Santa Faustina, “para ouvir a voz de Deus, é preciso ter o silêncio na alma” (Diário 118).

Uma vez que nos dispomos a ouvir a Palavra de Deus, precisamos ainda dar um passo adiante: viver de acordo com os ensinamentos de Deus, pois a palavra “escutar” significa também “obedecer”. A Palavra de Deus é como uma rocha sobre a qual construímos nossa casa, ou seja, a nossa vida cristã (Mt 7,24), pois a Palavra “é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça” (2 Tm 3,16). A obediência é a nossa resposta fiel a Deus que constantemente nos dirige a Sua Palavra.

A primeira palavra a ecoar no universo foi a de Deus: “Haja luz!” (Gn 1,3), e esta voz nunca mais cessou, e continua a iluminar nossa vida. Como disse Jesus, “o céu e a terra passarão, mas minhas palavras jamais passarão” (Mt 24,35). Nós fomos criados pela Palavra de Deus, e por esta Palavra seremos salvos.

Como conclusão, peçamos a luz do Espírito Santo, para que a Palavra de Deus nos conduza no caminho da fé:

Oh! Espírito Santo, dá-me ouvidos solícitos como os de Maria, para ouvir a voz de Deus; dá-me um coração dócil como o de Maria, para acolher com amor a Palavra; que com minha boca e minha vida eu anuncie o Evangelho cada dia da minha vida. Amém.

 

 

Por Padre Eli Carlos A. de Sousa, MIC
Revista Divina Misericórdia, Ed. 74