Julho, mês do precioso Sangue de Cristo

Ó Hóstia Santa, encerrada para mim num cálice de ouro,
para que em meio ao deserto do exílio —
eu atravesse pura, imaculada, intacta,
e que isso a força do teu amor realize.

Ó Hóstia Santa, reside na minha alma,
Amor mais puro do meu coração,
que Tua luz dissipe as trevas —
não negarás a graça ao coração humilde.

(Diário de Santa Faustina, 159).

 


Neste mês do Precioso Sangue, vamos passar algum tempo contemplando o mistério da Eucaristia. Vamos ponderar como a vida e o amor de Deus é transmitido a nós sob as aparências do pão e do vinho. Compartilhamos a graça de Deus, a própria existência de Deus, por meio da generosidade do Nosso Senhor.

O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós

“Que poderei retribuir ao Senhor…?” O Salmo 115, que a Igreja por séculos fez constar em sua Liturgia, tem uma lição a nos passar: o sacrifício que não podíamos oferecer a Deus, Ele mesmo veio oferecer em nosso lugar.

A virtude da religião, explica São Tomás de Aquino, é o hábito da justiça pelo qual damos ao Deus Todo-Poderoso o que lhe devemos como nosso Criador e Senhor: seu direito à adoração adequada, tanto em nossas ações externas (por exemplo, louvando-o com os lábios, curvando-nos diante dele) e atos internos (como a humilde submissão da mente e do coração em adoração).

Como Ele é nosso Criador e soberano Senhor, de quem dependemos em nosso ser e em nossa vida, em nossas atividades e para a nossa felicidade, a Ele nós devemos tudo: cada parte de nós mesmos, corpo e alma.

Esse retorno não é algo que possamos fazer tal como Ele merece, mas podemos dar o máximo que é possível a uma criatura.

 

A Deus devemos tudo: cada parte de nós mesmos, corpo e alma

A Queda mudou tudo. Agora, o homem age contra aquilo que deve a Deus — age, na verdade, na medida do possível, contra o próprio Deus, pois o Senhor, que está presente em suas leis, é amado quando são obedecidas, mas desprezado, quando desobedecidas. Adão e Eva agora vivem em um mundo que se voltou contra eles, como eles mesmos se voltaram contra o seu Criador e Senhor.

Para os filhos caídos de Adão, portanto, a virtude da religião deve necessariamente assumir a forma de um culto sacrificial pelo qual Deus é honrado e também aplacado. O derramamento de sangue simboliza a morte da própria vontade egoísta: derramar a vida, dolorosamente, para restaurar o que foi perdido e mostrar que pertence apenas a Deus.

“Sem derramamento de sangue, não há perdão dos pecados” (Hb 9, 22).

Deus deu a Israel a Antiga Lei como um sistema, uma forma estabelecida de adoração que tornaria necessária a vinda de um Mediador e Redentor, de alguém que, em si mesmo, pudesse oferecer a Deus uma adoração verdadeiramente digna de seus direitos sobre toda a Criação.

A consagração corresponde à morte deste Cordeiro no altar da Cruz. A Comunhão significa tomar parte na salvação que nos foi adquirida ao preço do seu Sangue precioso.

Somente Cristo, portanto, realiza de modo perfeito a virtude da religião, e nós temos o privilégio incomparável de sermos inseridos em sua própria adoração.

Quando está prestes a tomar o Preciosíssimo Sangue, o sacerdote no rito antigo pronuncia o verso do Salmo: “Que poderei retribuir ao Senhor por todas as coisas que ele me deu?” (Sl 115, 12); Ele pega o cálice com mais dois versos: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos” (Sl 115, 4; 17, 4).

Em seguida, ele se benze com o cálice em forma de cruz e, segurando a patena sob ele, toma o Preciosíssimo Sangue após pronunciar as palavras: “Que o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo preserve a minha alma para a vida eterna”.

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O Justo e Santo vem, por misericórdia, habitar em seu interior, para que o homem possa, unido a Cristo, oferecer-se a Deus como uma oblação digna. O cristão incorporado a Cristo tem o “Deus de Deus, luz da luz”, dentro de si, e entre o Pai e o Filho há o amor mais elevado e a mais sublime justiça, como se cada um deles estivesse eternamente dando ao outro a sua perfeita retribuição. O Pai não apenas gera o Filho, mas nele se compraz e o recebe no amor eterno e recíproco que é o Espírito Santo. A Sagrada Comunhão coloca o fiel nesta circumincessão ou habitação mútua das Pessoas divinas. É por isso que o cálice é mencionado como: o cálice da salvação eterna.

Como ensina a Madre Matilde do Santíssimo Sacramento (1614–1698):

A Missa é um mistério inefável no qual o Pai eterno recebe homenagens infinitas: nela Ele é adorado, amado e louvado como merece; e é por isso que somos aconselhados a receber a Comunhão com frequência, a fim de cumprirmos para com Deus, por meio de Jesus, todas as nossas obrigações. Isso é impossível sem Jesus Cristo, que entra em nós para realizar o mesmo sacrifício da Santa Missa.

 

Fonte: Padre Paulo Ricardo