O direito inviolável à vida

08 de outubro: Dia Internacional do Direito à Vida

Horrendo. Sórdido. Hediondo. Execrável. Nefando. Abominável. Sacrílego. Vil. Perverso. Inqualificável. Revoltante. Não há como descrever o inominável crime do aborto.  “Lembro todos os dias e choro”, confidenciou-me uma moça que, fustigada pelo flagelo do remorso e da tristeza, procurou-me para que eu rezasse por ela.

Na adolescência, ela cometeu um aborto. Arrancou do seu ventre não um estorvo, mas uma criatura dotada de alma imortal, feita à imagem e semelhança de Deus, capaz de conhecer-se, de possuir-se, de se doar livremente e entrar em comunhão com outras pessoas. “Nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas” (Sl 138, 15).

Como ela, no mundo inteiro milhões de assassinos de seres humanos indefesos se esquecem de que “a vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecido os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida” (Catecismo da Igreja Católica 2270).

A matança de inocentes, contudo, não se limita aos cerca de 50 milhões de abortos cometidos todos os anos, em todo o mundo. Prossegue com a triste realidade de ricos cada vez mais ricos que, à custa de pobres cada vez mais pobres, não respeitam direito algum nem pessoa alguma. Estes morrem por falta de alimento, saneamento básico e remédios. Aqueles matam a si mesmos com a ansiedade crônica, o excesso de comida e bebida. Quando não por overdose.

São João Paulo II nos lembra que “um país que mata seus filhos não tem futuro”. Uma humanidade livre da cultura da morte passa pelo reconhecimento de que, “por ser imagem de Deus, o indivíduo humano tem a dignidade de pessoa: ele não é apenas alguma coisa, mas alguém” (CIC 357). É tão grande o amor inestimável e apaixonado de Deus por suas criaturas que, sem reservas, o move a se declarar para cada um de nós: “Antes que no seio fosse formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações” (Jr 1, 5).

São João Crisóstomo não poupa elogios à única criatura na terra que Deus quis por si mesma: “Quem é, pois, o ser que vai vir à existência cercado de tal consideração? É o homem, grande e admirável figura viva, mais precioso aos olhos de Deus do que a criação inteira; é o homem. É para ele que existem o céu e a terra e o mar e a totalidade da criação, e é à salvação dele que Deus atribuiu tanta importância que nem sequer poupou seu Filho único em seu favor. Pois Deus não cessou de tudo empreender para fazer o homem subir até Ele e fazê-lo sentar-se à sua direita”.

Os que se consideram donos do mundo – àqueles que fazem pouco caso da vida humana -, deveriam ter em conta que no Juízo do Último Dia “será revelada a conduta de cada um e o segredo dos corações. Será também condenada a incredulidade culpada que fez pouco caso da graça oferecida por Deus. A atitude em relação ao próximo revelará o acolhimento ou a recusa da graça e do amor divino. Jesus dirá no Último Dia: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40), (CIC 678).

Estes filhos da perdição deveriam levar mais a sério as Palavras do Senhor Jesus que, em termos graves, nos adverte: “Digo-vos a vós, meus amigos: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois disto nada mais podem fazer. Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: temei àquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno; sim, eu vo-lo digo: temei a este” (Lc 12, 4s). Anuncia, igualmente, que “enviará seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente” (Mt 13, 41-42), e que pronunciará a condenação: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25, 41).

Chamados, por graça, a uma aliança com o nosso Criador, pessoa alguma pode eximir-se de oferecer-lhe uma resposta de fé e amor. Ninguém mais pode dá-la em nosso lugar. O Magistério da Igreja ensina que: “No desígnio de Deus, o homem e a mulher têm a vocação de “submeter” a terra como “intendentes” de Deus. Essa soberania não deve ser uma dominação arbitrária e destrutiva. À imagem do Criador “que ama tudo o que existe” (Sb 11,24), o homem e a mulher são chamados a participar da Providência divina em relação às demais criaturas. Daí a responsabilidade deles para com o mundo que Deus lhes confiou” (CIC 373).

Depois de uma sincera confissão com um sacerdote, a moça que mencionei inicialmente recuperou a alegria de viver. Aos olhos de Deus, ninguém é um caso perdido: “Bem conheço os desígnios que mantenho para convosco – oráculo do Senhor -, desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro e uma esperança” (Jr 29, 11).

Nos anos que nos restam nesta vida – e não são muitos – façamos todo o possível para defender a dignidade da pessoa humana, desde seu nascimento até a morte. Somente assim, no dia da nossa morte, seremos admitidos na sociedade dos santos anjos, no Reino dos Céus  – o paraíso celeste com Cristo.



Celso Deretti para a Revista Divina Misericórdia, Ed. 68.