Como não pregar um sermão

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A exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, do papa Francisco, nos traz várias dicas sobre como dar a homilia de domingo. As diretrizes sobre a pregação, da Congregação para o Culto Divino, analisam a natureza da homilia litúrgica. Juntamente com esses conselhos vindos diretamente da Santa Sé, eu gostaria, como veterano de 60 anos no mundo e 30 anos no púlpito, de oferecer as minhas próprias sugestões sobre como NÃO pregar uma homilia.

1. Faça com que tudo gire em torno de você.

Dê um sermão rigorosamente autobiográfico. Os fiéis vieram à missa com uma vontade incontrolável de saber tudo sobre as suas últimas férias. Não há necessidade alguma de falar daquela peculiar leitura sobre Abraão, Isaac e a faca.

Eu ouvi, recentemente, um sermão sobre as meias de um padre. O padre explicou o quanto é difícil manter juntos os pares de meias. Falou do seu sabão em pó preferido para lavar as meias e das vantagens de estendê-las no varal. Disse que, entre os padres, existe uma polêmica sobre o que é mais adequado: usar meias listradas ou totalmente pretas (essa foi nova para mim). Ficamos todos esperando por alguma relação entre as meias e a vida espiritual. Será que a meia perdida seria mais ou menos como a ovelha perdida na parábola do Bom Pastor? O mistério não foi desvendado. A homilia terminou com a revelação de que o padre às vezes acha difícil lavar a roupa.

Em outra ocasião, ouvi um sermão em que o pregador falava do ressentimento. O tema tinha a ver com o Evangelho, que tratava das disputas e ciúmes entre os apóstolos. Como aquecimento para o assunto, o pregador descreveu os próprios ressentimentos para com seu irmão (que era esportista e ganhava muitas medalhas), para com um professor da sexta série (que era muito crítico) e para com a sua querida mãe (que era um pouco distante dos filhos).

Caro padre, você não foi ordenado para contar a sua própria história. Você foi ordenado para proclamar outra Pessoa.

2. Deixe tudo nas mãos do Espírito Santo: não há qualquer necessidade de preparar a homilia.

Um dos gêneros homiléticos mais populares hoje em dia consiste em guiar os fiéis por uma espécie de excursão de 20 minutos por entre vários mundos paralelos. O pregador vai descarregando todo um catálogo de pensamentos aleatórios e desconexos. Um padre nos contou, em outro recente sermão improvisado, que Samuel tinha ouvido um barulho parecido com um sussurro, que devemos ter paciência com as pessoas que estão perdendo a audição, que o comparecimento na quermesse de Natal foi ótimo (aplausos dos fiéis ouvintes), que os recentes acontecimentos no Oriente Médio são perturbadores e que devemos ser cuidadosos com as coisas que postamos no Facebook. Ah, sim, e também que houve um erro no boletim da paróquia: a segunda coleta será destinada ao coral e não às bolsas de estudo para o ensino fundamental.

Tudo bem, padre: você está sobrecarregado. Mesmo assim, os seus paroquianos têm direito a um sermão que tenha começo, meio e fim. Eles desejam uma luz espiritual clara, fundamentada na Escritura, fruto da sua oração e do seu estudo sobre as lições bíblicas.

3. Seja sempre “light”: prefira o sentimental e evite o doutrinal.

Não chateie os paroquianos com complicações como a expiação dos pecados. Mantenha-os sempre “zen”.

Era domingo de Páscoa e a igreja estava lotada. O pregador começou dizendo que a esperança cristã significa “Amanhã será sempre melhor do que hoje”. Ficamos esperando um desenvolvimento teológico. Falará ele da ressurreição do corpo? Da imortalidade? Do juízo final? Mas só veio mais daquele mesmo pensamento mágico sobre o futuro que será bom.

Depois destes três conselhos que NÃO devem ser seguidos, eu gostaria agora de oferecer dois conselhos positivos aos pregadores:

1. Apaixonem-se pela palavra de Deus nas Escrituras.

Deixem o grande hino da criação, da queda e da redenção se transformar na sua música-tema pessoal! Caminhem pela Bíblia. Armem a sua tenda na Bíblia! Se possível, aprendam hebraico e grego bíblico. Vocês darão aos seus fiéis uma palavra de esperança que nenhum governo nem técnica psicológica poderá jamais oferecer, porque a nossa é uma esperança enraizada na vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a própria morte.

2. Amem as pessoas para as quais vocês farão suas homilias.

Um distinto pregador protestante relatou, certa vez, que dava início a cada semana passando uma hora dentro da sua igreja. Ele andava para cima e para baixo e percorria todo o templo imaginando os vários fiéis que estariam ali sentados num domingo típico. Ele pedia a Deus que lhe mostrasse o quanto o seu sermão poderia responder às necessidades e às questões específicas dos fiéis. Afinal, é no estudo perseverante da Palavra de Deus e nessa amorosa intercessão pelos fiéis que o Espírito Santo realmente começa a nos ensinar a pregar.

fonte: Aleteia