Dois corações: Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria

A cada ano, após o 2º domingo depois de Pentecostes, a Igreja celebra a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus e a Memória do Imaculado Coração de Maria, comemorado respectivamente nesta sexta-feira, dia 19, e sábado, dia 20 de junho.


Já, São João Eudes (séc. XVII), declarado pelo Papa Pio X como “pai, doutor e apóstolo da doce devoção aos Corações de Jesus e de Maria”, não separava os dois corações na liturgia.

Desde quando debaixo do coração de Maria começou a pulsar o coração humano do Filho de Deus feito carne, estes dois corações sempre batiam, e continuam batendo, num ritmo só, no ritmo de amor e de misericórdia!

Unidos estreitamente no Mistério da Encarnação e da Redenção não foram separados nem pela morte. Podemos dizer, metaforicamente, que, quando o coração de Jesus parou e foi rasgado pela lança, naquele momento, Maria acolheu o coração do seu Filho no seu doloroso coração materno. E quando o coração dela parou de bater nesta terra, Ele, logo, “reanimou” o coração de sua Mãe e arrebatou ao céu, para estar junto d’Ele para sempre. Por isso, com gratidão, contemplamos esses dois Corações juntos.

O coração é símbolo de bondade e de amor. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus quer transmitir ao mundo, aflito, sua mensagem de misericórdia e confiança, expressas exatamente no coração humano e divino do Verbo Encarnado.

As suas raízes podemos encontrar no gesto de São João, que na Última Ceia encostou a sua cabeça no peito de Jesus e na cruz, onde o soldado abriu o lado de Jesus com uma lança. Esta devoção, já presente na Idade Média, foi popularizada pelas aparições do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque (1675, França).

Nesta aparição, Jesus lhe mostrou Seu coração em chamas e cercado de espinhos, queixando-se de que este coração, que tanto amou a humanidade, só recebeu ingratidão e ultrajes e pediu reparação destas ofensas. No século XVIII, o Culto ao Sagrado Coração de Jesus foi aprovado pelo papa e se estendeu por toda a Igreja. Ficou muito popular nos séculos XIX e XX.

No clima desta devoção, cresceu e viveu Santa Faustina. Confirmam isso as anotações do seu Diário. Para um retiro que fazia, ela escolheu grandes propagadores do culto do Sagrado Coração de Jesus: Santa Gertrudes (+1302) e São Claudio de la Colombière (+1682) – confessor de Santa Margarida M. Alacoque (cf. Diário, 728).

O Diário é repleto de suas místicas intimidades para com Sagrado Coração de Jesus. “O Senhor estreitou-me ao Seu Coração e disse: “Reclina a tua cabeça no Meu peito e descansa” (D. 1053).Depois da santa Comunhão, senti em meu próprio coração as batidas do Coração de Jesus” (D. 1821). “Meu Jesus, acima de tudo agradeço-Vos pelo Vosso Coração – Ele só me basta” (D.240). “Eu, o Senhor, estou contigo. Nada temas, estás em Meu Coração” (D. 1133).

Ao contemplar o Coração de Jesus, Santa Faustina se encanta pela Misericórdia de Deus e este é um novo e original aspecto da espiritualidade que lança.

Minha filha, olha para o Meu Coração misericordioso. Quando fixei o meu olhar nesse Coração Sacratíssimo, saíram Dele os mesmos raios que estão na Imagem, como Sangue e Água, e compreendi como é grande a misericórdia do Senhor” (D. 177).

Em outro trecho do Diário, Santa Faustina clama: “Ó Coração santíssimo, fonte de misericórdia, (…) suplico-Vos luz para os pobres pecadores” (D. 72). Nos Louvores, ela declara solenemente que “confia na Misericórdia Divina, que está encerrada no Coração de Jesus” (D. 949). E propaga a jaculatória salutar recomendada pelo próprio Jesus: “Ó Sangue e Água que jorrastes do Coração de Jesus como fonte de misericórdia para nós, eu confio em Vós!” (D. 187).

Santa Faustina mostra em seu Diário uma nova possibilidade de reparar as ofensas desferidas ao Sagrado Coração de Jesus: é a propagação e a vivência da misericórdia.

“O Senhor me disse: Minha filha, não te canses de divulgar a Minha misericórdia; consolarás com isso o Meu Coração que arde com a chama de compaixão para com os pecadores” (D. 1521). “As almas que veneram e glorificam a Minha misericórdia são imagem viva do Meu Coração” (D. 1224). “Minha filhinha, tu és a Minha delícia, o alívio do Meu Coração” (D. 164). “O Meu Coração está repleto de compaixão e misericórdia para com todos. O coração de Minha esposa deve ser semelhante ao Meu Coração” (D. 1148)

Santa Faustina teve também um terno e filial amor pelo Coração Imaculado de Maria. Com certeza, ela soube das aparições de Nossa Senhora, em Fátima, a ela contemporâneas, que bastante popularizaram esta devoção. Em Portugal, Maria apareceu aos pastorinhos, com o coração em chamas e cercado de espinhos, quase igual ao Coração de Jesus, visto por Santa Margarida, e pediu que a humanidade parasse de ofender a seu Filho, porque já está ofendido demasiadamente. As aparições que recebeu a Beata Alexandrina de Balazar (1935) contribuíram para a propagação deste culto. Depois, o Papa Pio XII consagrou o mundo ao Coração de Maria e instituiu a sua festa.

As passagens do Diário mostram como Santa Faustina crescia na escola da Virgem Imaculada e, ao mesmo tempo, revelam a estreita ligação entre o Coração de Maria e o Coração de Jesus Misericordioso.

“Ela me defende e instrui. Estou tranquila junto ao seu Imaculado Coração” (D. 1097). “Peço-lhe muito  que se digne acender em mim o fogo do amor a Deus de que estava inflamado o seu Coração no momento da Encarnação do Verbo Divino” (D. 1114) “A Santa Virgem, (…), é a primeira a bendizer a onipotência da Vossa misericórdia: o seu Coração puro abre-se com amor à vinda do Verbo” (D. 1746). “A Santíssima Virgem, me disse: Deus, tem predileção somente pelos humildes e aos orgulhosos sempre se opõe” (D. 1711). “A humildade e o amor da Virgem Imaculada permeavam a minha alma” (D. 843). “Maria é minha Mestra, que me ensina sempre como viver para Deus. O meu espírito resplandece na Vossa mansidão e humildade, ó Maria” (D. 620).

Assim como a Devoção da Divina Misericórdia tem sua fonte no Sagrado Coração, podemos dizer que também o nosso Santuário tem sua origem no Coração Divino. Em 1992, as Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, para agradecer a Deus pelos 100 anos da sua presença no Brasil, doaram à Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição uma parte do terreno, aqui em Curitiba, para a construção do Santuário da Divina Misericórdia. Nossa eterna gratidão às Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus! Mesmo neste exemplo de cooperação humana de nossas Congregações, nos seus respectivos carismas – Sagrado Coração e Imaculada – é evidente a estreita cooperação divina do Coração de Jesus e o de Maria! Eles batem sempre no mesmo ritmo de amor e misericórdia em favor dos homens!

 

Padre Marcos Szczepaniak, MIC
Revista Divina Misericórdia, edição 72, maio/junho 2020.