Não pronunciar o nome da Misericórdia em vão

Há algum tempo existe uma palavra quer retorna insistentemente na pregação dos padres, dos religiosos ou nas mídias católicas e laicas: Misericórdia. Que palavra bonita, suave, plena de beleza, doçura, de força! Na tradição cristã, recorda o quanto a pequenez e a fragilidade do homem pode ser abraçada pelo amor sem limites de Deus.

Na história da Igreja, porém, essa palavra tem sido sempre acompanhada de outras, para não ser mal interpretada. “Misericórdia e verdade se encontrarão, justiça e paz se beijarão. A verdade brotará da terra e a justiça se inclinará do céu “, assim recita o Salmo 84, recordando para aquele que o canta, que a misericórdia e a verdade, assim como a paz e a justiça, não podem ser separadas. Uma tem sentido junto da outra.

Que significado teria a palavra misericórdia, se não houvessem os miseráveis, os pecadores, se a verdade do homem não fosse a sua necessidade de perdão, a sua natureza de pecador? O que é a paz, se não um nome vazio, um címbalo que retine, sem a justiça? Os heréticos na história da Igreja, são com frequência aqueles que rompem o et et [ do latim = e e, no sentido de soma] e anunciam o seu aut aut [ou isto ou aquilo, uma escolha em que um termo exclui o outro]: são os pelagianos que afirmam que o homem se salva sozinho, sem a necessidade da graça de Deus; ou os luteranos, segundo os quais só a fé, sem as obras, é o necessário para a salvação… Em uma heresia Deus é deixado de lado, na outra, o homem é aniquilado.

Da mesma forma houveram os hereges que queriam separar o Antigo Testamento (aquele no qual o Deus “zeloso”, “dos exércitos”, dá aos homens os Seus mandamentos, a Sua lei), do Novo Testamento (aquele no qual toda a lei é resumida e contida no mandamento do Amor): assim, esses hereges têm tirado de Deus alguns de seus atributos (Verdade e Justiça, em primeiro lugar), convencidos de que esses estão em contraste com Deus como Amor. Mas a verdade do Evangelho é que não há Amor, sem mandamentos, isto é, sem respeito à lei: “Quem me ama, guardará meus mandamentos”.

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Pode-se, então, separar a Misericórdia de Justiça? Não é possível, porque a Justiça sem Misericórdia não é verdadeiramente Justiça, mas vingança ou alguma outra coisa; contudo, também a Misericórdia, sem Justiça, não tem sentido. Assim, uma pregação na qual Deus fosse “apenas” Misericórdia,  terminaria por perder o sentido: serve, a Misericórdia de Deus, se Ele não é, ao mesmo tempo, o Justo diante do qual nós somos pecadores?  O Justo, diante do qual, como escreveu Pascal,  podemos e devemos nos humilhar, sem humilhação?  E se todo pecado fosse abolido, quem sentiria alguma vez a necessidade de pedir perdão, de desejar  misericórdia?

Para a Igreja, existe um tribunal da misericórdia sempre aberto, até ao último suspiro: o confessionário. Aqui cada um pode obter o perdão, por qualquer culpa, inclusive a mais grave que se possa imaginar. Mas isso não acontece sem o respeito pela Justiça divina: de fato, para ser perdoado, mesmo de um assassinato, é necessário verdadeiro arrependimento e propósito sincero de não mais pecar. O homicida, o ladrão, o adúltero que se confessam, embora determinados a continuar no próprio pecado, não podem ser abraçados pela Misericórdia divina, porque fazem pouco caso da Justiça.

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“Nem eu te condeno. Vai,  e de agora em diante não peques mais”, disse Jesus à mulher adúltera, unindo o perdão à admoestação (daqui uma das sete obras de misericórdia espirituais: “admoestar os pecadores” ou “corrigir os que erram”). Padre Pio, o Santo do confessionário, às vezes mandava embora os seus penitentes, sem absolvição: lendo os corações, percebia quando eles não estavam arrependidos e não estavam firmemente propensos, determinados a corrigir-se. A sua profunda misericórdia, a mesma que o levava a ficar no confessionário por horas e horas todos os dias, nunca foi sinônimo de desleixamento, indiferentismo, ou relativismo…

Hoje, no entanto, às vezes parece que a expressão “Deus é misericordioso” significa, para alguns, que Deus é um simpático personagem que nos cria, que nos coloca nesta terra, havendo já predestinado, todos, ao Paraíso. Em oposição à nossa própria dignidade de criaturas livres. Desse modo, misericórdia pode tornar-se a palavra atrás da qual uma pessoa se sente melhor e mais moderna; atrás da qual esconde o questionamento dos próprios mandamentos.

Ao contrário, a palavra Verdade, a palavra Lei (na expressão “lei de Deus”), a palavra Justiça são pronunciadas ou para apontar os “doutores da lei”, reais ou presumidos fariseus que delas abusam pelas razões mais pérfidas e inomináveis, ou em relação à culpa social,  ou coletiva, ou econômica, tais como guerras, a corrupção… que toca bem pouco a vida da maioria dos homens, e que costumam ser tão vago que não incomoda, no específico, a consciência de ninguém.

Como o Evangelho de Cristo foi real, duramente verdadeiro, tanto que  valeu-lhe a morte, ainda assim amável, também a vida e as palavras dos cristãos sejam verdadeiras e misericordiosas: saborosas e não insípidas, amorosas e não arrogantes.

Texto extraído da Revista Divina Misericórdia Ed.042

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