Jesus Misericordioso, a Misericórdia Encarnada

Você já teve a experiência de ser incapaz de expressar em palavras exatamente o que quis dizer? Às vezes, isso acontece por causa de nossas próprias habilidades defeituosas na comunicação oral ou escrita. Mas outras vezes – e especialmente quando lidamos com realidades sobrenaturais – é quase impossível “capturar” em meras palavras humanas os mistérios de Deus que estamos tentando transmitir.

Um de nossos leitores, chamado Rita, recentemente me enviou a seguinte pergunta:

As pessoas do meu grupo de oração me pedem para explicar qual é a diferença entre Jesus e a Divina Misericórdia? Não é o mesmo? Oramos continuamente a Jesus, e assim rezamos à Divina Misericórdia.

Rita, o que pode confundir os membros do seu grupo de oração é que às vezes Santa Faustina fala em seu diário sobre a Divina Misericórdia como um atributo de Deus. Um atributo da natureza de alguém é uma capacidade natural que ele possui. Assim, dizemos que os seres humanos têm como atributos naturais a capacidade inerente de pensar e escolher. Os seres humanos são criaturas compostas de corpo e alma, e a alma tem a capacidade natural de pensar e fazer escolhas.

Certamente, os atributos de Deus, Suas capacidades, são um pouco diferentes das nossas: as Dele são infinitas, e nunca há um momento em que Ele não esteja representando todas elas de uma maneira infinitamente perfeita.

Jesus disse a Santa Faustina: “Diz que a misericórdia é o maior atributo de Deus. Todas as obras das Minhas mãos são coroadas pela misericórdia” (Diário, 301). Aqui, Jesus estava falando claramente sobre a misericórdia de Deus como um atributo divino e nos dizendo que tudo que Deus faz é uma expressão de Sua misericórdia. Da mesma forma, quase todas as linhas de “Louvores da Misericórdia Divina” de Santa Faustina parecem começar por se referir à Misericórdia Divina como um atributo de Deus (ver Diário, 948-949).

Mas, por incrível que pareça no final de cada linha desses “louvores” vem a frase “Eu confio em Vós“. Santa Faustina está adorando as maravilhas do atributo da Divina Misericórdia, mas ela não podia rezar para um mero atributo, então termina cada linha dirigindo sua oração às pessoas divinas que realmente têm e manifestam esse atributo. É por isso que a oração dela é realmente dirigida a um “Você“: isto é, às Três Pessoas da Santíssima Trindade, precisamente por causa de seu maravilhoso atributo e derramamento eterno de misericórdia sobre nós.

De fato, na maioria dos casos, nessa devoção, nossas orações são dirigidas a Segunda Pessoa da Trindade, o divino Filho de Deus encarnado, Jesus Cristo, porque é precisamente por meio Dele que somos capazes de ver o amor misericordioso do Senhor.

O Papa João Paulo II escreveu sobre isso em sua grande encíclica Dives in Misericordia (Rico em Misericórdia):

Em Cristo e através de Cristo, Deus torna-se especialmente visível em Sua misericórdia. … Ele [Cristo] não apenas fala e explica, pelo uso de comparações e parábolas, mas, acima de tudo, Ele mesmo a encarna e personifica. Ele mesmo, em certo sentido, é misericórdia (n. 2).

Santa Faustina até chama Jesus de “Misericórdia Encarnada“, pois é através Dele, acima de tudo, que podemos ver e experimentar por nós mesmos, o amor misericordioso da Santíssima Trindade (ver Diário, 1745).  De fato, esta é a mensagem implícita nas famosas orações de Santa Faustina que usamos todos os dias na Hora da Misericórdia. Aqui ela se refere a Jesus simplesmente como “Misericórdia Divina insondável” porque Ele é a fonte dessa misericórdia que derrama sobre o mundo:

“Vós morrestes, Jesus, mas uma fonte de vida jorrou para as almas, e abriu-se um mar de misericórdia para o mundo. Ó Fonte de Vida, insondável misericórdia de Deus, envolvei o mundo todo e derramai-Vos sobre nós” (Diário, 1319).

Resumindo, Rita, você está bastante correta: quando oramos e adoramos, não podemos nos dirigir a uma abstração, como um atributo, mas apenas a uma pessoa ou pessoas que possuem e manifestam esse atributo. A pessoa divina que abriu as comportas da Divina Misericórdia para nós não é outra senão Jesus Cristo, nosso Salvador, que é, portanto, chamado simplesmente de a “Divina Misericórdia”.

Por fim, para garantir que você está no caminho certo, citarei aqui as palavras da Rev. Dr. Ignacy Rozycki, teólogo polonês que examinou o Diário de Santa Faustina em profundidade para a investigação formal de seus escritos realizados pelo Vaticano como parte do processo de sua canonização. Pe. Rozycki explica:

 A respeito de seu sagrado coração, Jesus fala à irmã Faustina: “Meu Coração é a própria Misericórdia” (Diário, 1777). Mas Ele também afirma a mesma coisa sobre Si mesmo [Diário, 1074]. Portanto, Jesus, como encarnação da Divina Misericórdia, também é o objeto apropriado da devoção. Segue-se que essa devoção pode igualmente ser chamada de Devoção à Misericórdia Divina e Devoção a Jesus Misericordioso, com os dois nomes expressando exatamente a essência da devoção em referência ao seu objeto.

Jesus, a Divina Misericórdia Encarnada, ocupa, no entanto, um lugar privilegiado nessa devoção. Ele não é apenas o objeto apropriado, mas é o objeto principal, no sentido de que todos os atos dessa devoção realmente têm Jesus como objetivo apropriado, mesmo aqueles que são direcionados às outras Pessoas de Deus. Por exemplo, o Terço da Divina Misericórdia está claramente direcionado à Misericórdia de Deus Pai. Contudo, os trechos do Diário (687 e 848) representam Jesus como àquele que concede todas as graças associadas a este Terço.

Este lugar excepcional de Jesus, dentro da estrutura da devoção, tem sua base doutrinária nas palavras do Evangelho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6). Visto que Jesus é o principal objeto dessa devoção, ela pode ser chamada, com razão, de forma abreviada de “A devoção ao misericordioso Senhor Jesus”.

(Rev. Ignacy Rozycki, STD, “Características essenciais da devoção à Divina Misericórdia”; Robert Stackpole, STD , Ed., Colunas de Fogo em Minha Alma: A Espiritualidade de Santa Faustina. Stockbridge: Marian Press, 2003; pp. 98-99).

Fonte: The Divine Mercy

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