A Copa do Mundo tem um curioso poder de unir pessoas. Quem acompanha futebol diariamente e quem mal sabe explicar a regra do impedimento acabam sentados diante da mesma televisão, compartilhando expectativas, emoções e esperanças. Durante algumas semanas, o esporte consegue romper barreiras e transformar um simples jogo em uma experiência coletiva.
Enquanto os olhos do mundo se voltam para os gramados e milhões de brasileiros acompanham cada lance da Seleção, uma história discreta se desenrola à beira do campo. Muitos descobriram apenas agora que o homem responsável por comandar o Brasil não nasceu em terras brasileiras. Carlo Ancelotti, o italiano de fala serena e currículo invejável, chegou cercado de expectativas, mas traz consigo algo que vai muito além da experiência tática e dos inúmeros títulos conquistados: uma profunda vida de fé, cultivada desde a infância e fortalecida por uma especial devoção a Padre Pio.
Talvez essa seja uma das maiores riquezas do futebol. Por trás das estatísticas, dos esquemas táticos e das disputas em busca da vitória, existem histórias humanas que raramente aparecem no placar. Histórias de famílias, de sacrifícios, de valores aprendidos em casa e de homens que, mesmo diante dos maiores palcos do esporte mundial, continuam carregando consigo uma pequena imagem de um santo e confiando suas intenções à providência de Deus.
Conhecido mundialmente como “Carletto”, Carlo Ancelotti nasceu em Reggiolo, no norte da Itália, em uma família de agricultores católicos. Desde cedo aprendeu com os pais que o trabalho é uma forma de dignificar a vida e que a fé deve acompanhar cada passo da existência. Ainda menino, ajudava nas tarefas do campo e sonhava tornar-se jogador de futebol não apenas por paixão, mas também para contribuir com o sustento da casa.
Mesmo alimentando esse sonho, jamais descuidou dos estudos. Frequentou colégios ligados aos salesianos, recebendo uma formação humana e técnica que lhe garantiria uma profissão caso a carreira esportiva não prosperasse. Assim, os ensinamentos de Dom Bosco estiveram presentes desde os primeiros anos de sua juventude, moldando uma personalidade marcada pela serenidade, pelo respeito e pela disciplina.
Em campo, Ancelotti construiu uma carreira admirável. Atuando como meio-campista de grande inteligência tática e refinamento técnico, destacou-se inicialmente no Parma, consolidou-se na Roma e fez parte de um dos elencos mais memoráveis da história do Milan. Ao lado de nomes como Paolo Maldini, Frank Rijkaard, Marco van Basten e Franco Baresi, sob o comando do lendário Arrigo Sacchi, conquistou duas edições da Liga dos Campeões da Europa.
Mas o destino ainda lhe reservava voos mais altos.
Pouco tempo depois de encerrar a carreira como jogador, iniciou sua trajetória como treinador. Os resultados falam por si. Tornou-se o único técnico da história a conquistar os campeonatos nacionais das cinco principais ligas europeias — Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha — e também o treinador que mais venceu a Liga dos Campeões da UEFA, levantando o troféu cinco vezes. Somadas às duas conquistas como atleta, são sete títulos da mais importante competição de clubes do mundo.
No entanto, entre tantas medalhas e troféus, existe um objeto de valor incomparavelmente maior para o treinador italiano: um pequeno santinho de Padre Pio.
Entre os anos de 1999 e 2001, durante uma viagem a San Giovanni Rotondo a convite de um amigo ligado à Juventus, Ancelotti teve a oportunidade de conhecer de perto o convento onde viveu o santo capuchinho. Visitou seu quarto, ouviu relatos sobre sua vida de oração, seus sofrimentos e os inúmeros testemunhos de conversão ligados ao frade estigmatizado.
A experiência marcou profundamente seu coração.
Desde então, Carlo Ancelotti tornou-se um devoto de Padre Pio. Antes do início das partidas, costuma carregar consigo uma pequena imagem do santo e beijá-la discretamente duas vezes, gesto simples que revela uma confiança silenciosa na proteção de Deus.
Curiosamente, quando perguntado sobre esse hábito, faz questão de esclarecer que jamais pede uma vitória em campo. Em suas próprias palavras, Deus deve ser procurado por causas muito mais importantes do que um resultado esportivo. Suas orações são direcionadas à família, aos amigos, às pessoas que sofrem e às necessidades daqueles que estão ao seu redor.
Essa postura talvez ajude a explicar por que tantos atletas que trabalharam sob seu comando o descrevem não apenas como um excelente treinador, mas como um líder equilibrado, humano e profundamente respeitoso.
Sabendo dessa devoção especial, a Confederação Brasileira de Futebol, em parceria com a Nike, preparou uma homenagem por ocasião de sua chegada ao comando da Seleção Brasileira: um quadro de Padre Pio e um tênis personalizado com as palavras italianas Serenità e Fé. Serenidade e fé. Duas expressões que parecem resumir perfeitamente o modo como Ancelotti encara não apenas o futebol, mas também a própria vida.
Há quem assista a uma Copa do Mundo pensando apenas em esquemas táticos, estatísticas ou resultados. Entretanto, talvez a maior beleza do futebol esteja justamente nas histórias escondidas por trás de cada uniforme.
Por trás de cada camisa existe uma família, uma infância, uma luta silenciosa, uma esperança cultivada e, muitas vezes, uma fé que sustenta o atleta nos momentos de glória e de fracasso. Há jogadores que entram em campo fazendo discretamente o sinal da cruz; outros carregam um terço no bolso, um escapulário no peito ou a imagem de um santo na carteira.
No caso de Carlo Ancelotti, por trás de um dos treinadores mais vitoriosos da história existe um homem que aprendeu com seus pais o valor do trabalho, recebeu dos salesianos uma sólida formação humana e encontrou em Padre Pio um companheiro espiritual para os desafios da vida.
No fim das contas, quando a bola começa a rolar, não torcemos apenas por um escudo estampado sobre uma camisa ou por uma seleção nacional. Torcemos por pessoas concretas, com suas alegrias, medos, sonhos e fragilidades. E talvez essa seja uma das mais belas lições que a Copa do Mundo pode nos oferecer: lembrar que, antes de sermos adversários em campo, somos todos irmãos, chamados a caminhar sob o mesmo olhar providente de Deus.



